POR LO-RUAMA LÓRING BASTOS
Nós sabemos bem que a gestão pública municipal é, antes de tudo, um pacto de confiança. Quando depositamos nossa esperança em um projeto para a nossa cidade, esperamos uma lealdade que transcenda os discursos e se materialize em transparência, eficiência e zelo pelo bem comum. No entanto, o recente cenário de instabilidade em Governador Valadares, que culminou na cassação do chefe do Executivo, escancarou as fraturas de uma administração que, infelizmente, rompeu esse compromisso conosco. O que observamos hoje é o retrato amargo de uma cidade esgotada. Sentir o abandono do município tornou-se uma dor diária, refletida no asfalto esburacado, na sujeira que se acumula nas ruas e nas obras inacabadas. Esse descaso geral evidencia um silêncio administrativo constante, mas é dentro das nossas escolas que essa crise revela suas consequências mais profundas e duradouras.
É sempre importante lembrarmos que, como nos garante a Constituição, a educação é um direito inalienável. Ela consiste em um processo contínuo, pautado no estudo, na pesquisa e no fomento à transformação social. Contudo, ao olharmos para o nosso município, vemos que o sistema de ensino enfrenta um evidente colapso estrutural. Vale ressaltar que esse cenário não surgiu do nada; ele é, na verdade, o sintoma mais crítico de uma máquina paralisada pela ineficiência administrativa, a qual se estende do Executivo até as engrenagens da própria Secretaria de Educação.
No lugar de uma atuação organizada, técnica e estratégica, esbarramos no visível despreparo de quem assume a liderança máxima da pasta – um reflexo que acaba alcançando as equipes responsáveis por conduzir seus setores. Como consequência direta dessa falta de domínio técnico e da ausência de um diálogo real e constante com as escolas, nossos diretores e equipes pedagógicas foram deixados à deriva, sem retorno de resoluções ou suporte efetivo para desempenhar suas funções.
Precisamos conversar, com muita franqueza, sobre o fato de que a escola só se consolida como um espaço genuíno de formação quando existe uma verdadeira ética do cuidado, e a omissão institucional que vivenciamos atua como um gatilho direto para o esgotamento psicossocial dos nossos educadores. Afinal, como podemos exigir um ensino de excelência, acolhedor e inovador, de profissionais que se encontram sobrecarregados, adoecidos e, muitas vezes, invisíveis aos olhos do próprio sistema? A saúde mental do professor é a base para que a aprendizagem aconteça; e empurrar esses profissionais para a linha de frente sem oferecer a retaguarda adequada é comprometer o futuro de toda a comunidade escolar.
Além do impacto na saúde docente, as falhas de gestão atingiram de modo drástico a estrutura material necessária para a garantia da aprendizagem. A precarização de serviços essenciais transformou-se em um obstáculo severo para os alunos. Exemplo disso foram as irregularidades do transporte escolar, que comprometeram o acesso às aulas e marginalizaram os estudantes, os quais, frequentemente, precisavam ser levados para casa por viaturas da Polícia Militar.
Somada a isso, a ‘crise da merenda’ evidenciou o profundo distanciamento entre o planejamento da Secretaria e a dura realidade escolar. Você sabia que as nossas crianças passaram quase um ano inteiro sem ter feijão no prato, sofrendo com a ausência prolongada de itens básicos de nutrição? Pois, é! Diante dessa negligência extrema, assistimos a professores e diretores tirando dinheiro do próprio bolso para comprar óleo, alho e cebola, em um esforço comovente para garantir a refeição dos alunos. Mais do que um erro gerencial, essa é uma falha crítica e punitiva, especialmente drástica para as instituições de tempo integral, nas quais a alimentação é vital para a permanência do estudante.
Toda essa sequência de falhas sabota o progresso de uma cidade com imenso potencial, mas que se viu refém da irregularidade e do improviso, ferindo a nossa dignidade e acabando com a nossa paciência. Por isso, neste atual cenário de transição política, é imperativo que o município repactue sua responsabilidade com a sociedade valadarense, que não tolera mais tanto descaso. A nova administração precisa assumir a educação básica pública não como um mero detalhe orçamentário, mas como o único caminho real de transformação e a prioridade máxima da gestão. Mudar a realidade das pessoas exigirá processos transparentes, rigor técnico e, sobretudo, um olhar humanizado. O verdadeiro desenvolvimento de Governador Valadares passa, obrigatoriamente, por uma gestão que ampare a saúde mental dos educadores e de toda a comunidade escolar, devolvendo, enfim, o respeito e a seriedade que nossas escolas tanto necessitam para voltar a pulsar.
Sobre a autora
Lo-Ruama Lóring Bastos - Mestra em Educação e Docência pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). É Pesquisadora, Historiadora, Professora do Ensino Superior, Consultora Educacional. Trabalha com Formação de Gestores e Professores; Competências Socioemocionais; Qualidade da Saúde Mental no Ambiente de Trabalho; Mal-estar Docente e Escolar. Contato: @viamestra




