por Tohru Valadares
Caríssimo ledor(a), a história cristã registra um dos episódios mais desconcertantes e revolucionários para a lógica humana: a escolha dos discípulos por Jesus. Em vez de selecionar eruditos, mestres da Lei ou pessoas de grande influência social, Jesus decidiu caminhar com homens simples, comuns e, muitas vezes, frágeis. Pessoas que humanamente não tinham capacidade para exercer a missão que viria adiante. Mas Ele fez isso para revelar uma verdade divina: Deus não escolhe os capacitados; Ele capacita os escolhidos.
Essa afirmação é sustentada pelas próprias Escrituras. Quando Jesus chama pescadores às margens do mar da Galileia, sua frase é categórica: “Vinde após mim, e eu vos farei pescadores de homens.” (Marcos 1:17). Ou seja, Ele não pediu habilidades prévias; Ele prometeu transformação.
Jesus reuniu um grupo heterogêneo, cheio de temperamentos distintos, histórias marcadas por limitações e erros. E foi exatamente nesse mosaico humano que Ele revelou sua maior pedagogia: a graça molda personalidades e constrói propósitos.
Pedro, Impulsivo, corajoso, inconstante; um homem que falava antes de pensar, capaz de declarar fidelidade absoluta e, horas depois, negar o Mestre. Em Pedro, Jesus viu a pedra que ainda seria lapidada (Mateus 16:18).
André, Silencioso, observador, agregador; não aparece com a intensidade do irmão Pedro, mas sempre conduz pessoas até Cristo (João 1:41–42).
Tiago e João, tempestuosos, intensos, passionais; chamados de “filhos do trovão” (Marcos 3:17), eram impulsivos, mas essa força emocional foi redirecionada para o amor e a liderança.
Filipe, Racional, questionador; era aquele que precisava de explicações (João 14:8), mas se tornou ponte entre Jesus e os curiosos.
Bartolomeu (Natanael), transparente, sincero; Jesus disse ser ele “um verdadeiro israelita, em quem não há dolo” (João 1:47).
Mateus, Publicano, rejeitado, detalhista; trabalhava para Roma e era odiado. Porém, encontrou em Cristo um novo propósito para sua organização e hábito de registros, tornando-se evangelista.
Tomé, Cético, prudente, racional; não era incrédulo, mas precisava de evidências (João 20:27). Sua fé, quando confirmada, tornou-se firme e profunda.
Tiago, filho de Alfeu, Discreto, silencioso; pouco aparece, mas sua constância silenciosa lembra que o Reino também é construído por quem serve sem ser visto.
Tadeu (Judas, filho de Tiago), Questionador espiritual; perguntou a Jesus por que Ele não se manifestaria ao mundo todo (João 14:22), mostrando preocupação com o alcance da fé.
Simão, o Zelote, Político, radical, ideológico; vinha de um movimento revolucionário. Em Cristo, aprendeu que a verdadeira transformação é espiritual, não armada.
Judas Iscariotes, Talentoso, administrava dinheiro, mas inconstante; tinha habilidades de gestão, mas não permitiu que o caráter fosse moldado. Sua história revela que o chamado exige fidelidade ao processo.
O 13º Discípulo, Matias: O escolhido pelo propósito, após a queda de Judas, os discípulos clamaram a Deus por alguém que completasse o círculo apostólico. Em Atos 1:24–26, a comunidade ora: “Tu, Senhor, que conheces os corações, mostra qual destes tens escolhido.”
Matias não estava entre os mais brilhantes, não era o mais conhecido, não fora protagonista das grandes narrativas do Evangelho. Mas tinha o que Jesus sempre procurou: fidelidade constante no caminho.
Ele acompanhou silenciosamente todo o ministério de Jesus (Atos 1:21–22). Não buscou destaque, não pediu posição, não foi protagonista, mas foi permanente. E por causa dessa permanência, Deus o exaltou.
Matias representa todos aqueles que não aparecem, mas permanecem. Todos os que são discretos, mas fiéis. Todos os que ninguém reconhece, mas que Deus vê.
Para ilustrar a pedagogia divina que transforma o incapaz em alguém capaz, a Parábola do Semeador (Mateus 13:1–23) revela um princípio: Não é o início que determina o destino, mas o terreno onde a semente cresce ou seja, o coração disposto ao processo. Os discípulos não estavam prontos no começo. Eram terreno irregular, misturado, cheio de pedras e espinhos. Mas, ao caminharem com Cristo, tornaram-se solo fértil.
Da mesma forma, Jesus ensina que a jornada tem mais valor que a chegada. Ele nunca separou propósito de processo. Em Lucas 9:23, diz: “Se alguém quer vir após mim, negue-se a si mesmo, tome cada dia a sua cruz e siga-me.” Negar-se, tomar a cruz e seguir são verbos de caminho, não de chegada. Toda capacitação divina acontece enquanto se caminha. Foi assim com os discípulos. Jesus prometeu: “Eu estarei convosco todos os dias.” (Mateus 28:20)
O “todos os dias” inclui: dias de coragem e dias de medo; dias de perguntas e dias de respostas;
Dias de fé e dias de queda. O processo molda. O caminho forma. O propósito se revela passo a passo. Crer e ser fiel ao chamado é o que torna possível suportar o processo. É por isso que os discípulos, mesmo frágeis, suportaram perseguições, prisões e até a morte porque, antes de serem enviados, foram transformados.
As escolhas de Jesus não foram estratégicas segundo a sabedoria humana. Mas foram divinas segundo o Reino. Ele escolheu pescadores, cobradores de impostos, revolucionários e homens comuns para provar que a grande obra não está na habilidade do escolhido, mas na capacidade do Deus que chama.
Assim como os discípulos, cada pessoa hoje carrega a oportunidade de ser moldada. O propósito não vem pronto; ele se constrói no caminho. Cristo forma, instrui, fortalece e conduz cada passo. E quem permanece fiel ao processo, encontra plenitude no propósito porque, no Reino de Deus, a jornada transforma mais do que a chegada. Paz&Bem.
TOHRU VALADARES bacharel em Teologia, Filosofia, Licenciado em Ciências da Religião, Psicólogo, Pós-graduado em conselhamento Cristão e Capelania, mediação de conflitos, filosofia Religiosa e ecopedagogia.





