por Marcius Túlio
Sonhar é pensar em perspectivas favoráveis, agradáveis e otimistas. É um momento em que nos é permitido, pelo menos ainda, pensar sem compromisso com o raciocínio ou com a razão.
Partindo do princípio que o pensamento raciocinado é uma característica nata dos humanos, o ato de pensar traduz uma herança Divina legada pela bondade infinita da Criação, logo, sonhar se torna um momento sublime de relaxamento em face das atribulações que a vida terrena se nos impõe.
Enquanto sonhamos, somos invariavelmente felizes, fazemos arranjos e tramas em que nossos anseios são satisfeitos, de modo a atenuar nossos medos e dar uma feição aos nossos pensamentos raciocinados, moldando nossa existência de uma maneira mais suportável, por assim dizer.
O plantel de sonhos é infinito e nos permite tergiversar sobre tudo e sobre todos, por isso mesmo os sonhos são personalíssimos e confidenciais de acordo com o interesse do sonhador. É um direito inalienável.
As idas e vindas da vida na Terra, marcada pelo jogo do poder, presente em toda a História da humanidade, sinaliza a perene tentativa de controle do pensamento alheio, caracterizado pelas eternas lutas pelo controle total, que passa, primordialmente pelo controle do pensamento.
Trata-se de um tipo de controle baseado em narrativas que induzem a uma única forma de pensar e de agir, desprezando obviamente, o raciocínio e sepultando a razão. É um controle tenebroso, cruel, escravizante, sobejamente demonstrado pelas civilizações ao longo da História.
É notório, portanto, que o controle do pensamento, ainda que alijado o raciocínio, é perfeitamente possível, entretanto, os sonhos ainda não se curvaram a um controle, em que pese as mais variadas formas de tentativas nesse sentido.
Sem esse controle tangível, os sistemas controladores ainda buscam desesperadamente uma fórmula eficaz que permita influenciar os desígnios dos sonhos com fantasias, engodos e promessas que ceifam a capacidade imaginativa típica dos sonhos, minimizando o elemento “pensar”, que é o estopim dos sonhos.
Com o avanço da tecnologia, em especial na área das comunicações, a fórmula da vez é a massificação de informações, onde verdades são imiscuídas em falsidades, mentiras são confirmadas, no modo “Göbbels”, de maneira a fazer o próprio indivíduo a duvidar de si mesmo. É o assassinato da cognição.
Esse assassinato se tornou uma profissão, extremamente rentável e sedutora, alienar o próximo vem se tornando arte, a arte do convencimento, onde as individualidades não mais importam, onde a vontade é substituída pelo interesse do profissional, do artista, o artifício da propaganda, transformada em Ministério no horrendo regime nazista, que foi fundamental para os infortúnios cometidos contra a humanidade, parece ter emergido das sombras para aterrorizar impiedosamente.
Sem perceber, talvez, movido por interesses fugazes ou por boa ou ótima remuneração, alguns formadores de opinião estão a aplicar, em pleno século XXl uma técnica que tanto combateram e criticaram num passado recente.
A inconsequência e o desprezo pela verdade integra a volúpia daqueles que defenestram mensagens que induzem ao erro a ponto de exaltarem a covardia como meio de vida ou como caminho para a glória.
Com inspiração sombria, sequestram a capacidade de sonhar prospectando uma ambiência imaginariamente confusa deturpando aquela felicidade que os sonhos sempre nos oferecem.
Aquela capacidade infinita de vislumbrar a felicidade, tão docemente permitida pelo sonho, adotou limites, a fábrica de sonhos tem nova patente, o decreto que proíbe sonhar está em gestação, seus autores em êxtase enquanto os mortais hibernam em sonhos dirigidos.
Paz e Luz.
Marcius Túlio é Coronel da Polícia Militar de Minas Gerais





