por Jamir Calili
Já comentei sobre a previsibilidade da política na coluna do dia 07 de janeiro de 2024. É preciso falar novamente disso, quando pensamos nas eleições de 2026. O jogo não está dado. Ainda tem muita água para rolar. A política não é um jogo de xadrez. Não há tabuleiro fixo, peças obedientes ou regras imutáveis. O grande equívoco dos strategy experts de plantão é acreditar que podem domar o caos com planilhas, pesquisas ou teorias deterministas. A política é um sistema caótico de nível 2 – um monstro que não apenas escapa às previsões, mas reage a elas, distorcendo a realidade no momento em que alguém ousa decifrá-la.
Há quem ainda insista em tratar a política como uma máquina de causa e efeito: controle a economia, domine a mídia, compre o Congresso, e o poder estará garantido. Essa visão é sedutora – alimenta o ego das elites e desencoraja insurgentes. Mas é também uma mentira perigosa. O século XXI já enterrou essa ilusão repetidas vezes. No lado da direita temos Nikolas Ferreira estourou as urnas para vereador e para deputado em uma cidade e Estado que deu várias eleições ao PT; Zema, um empresário outsider da política, figura inesperada para se tornar governador; Cleitinho Azevedo, uma figura não tradicional. No lado da esquerda temos a Duda, transexual que estourou nas urnas para vereadora e deputada; Janones que começou o estilo que veio a ser adotado posteriormente por Cleitinho, virou um ídolo da esquerda adotando estratégias da direita nas redes sociais; e o próprio Lula que se reelegeu depois de um escândalo nacional de corrupção e é forte candidato a reeleição apesar da crise de popularidade que enfrenta.
O que prevalece agora é a capacidade de improvisar no caos. Quem ainda acredita em controle absoluto – seja o centrão, seja a esquerda radical – está fadado a dois destinos: a) a loucura, tentando impor ordem onde só há turbulência; ou b) o fracasso, desperdiçando milhões em campanhas que se tornam irrelevantes em uma semana.
Até 2013, esses fenômenos seriam esmagados pela estrutura partidária. Hoje, a política é um campo minado, onde uma postagem viral, um vazamento estratégico ou um meme podem detonar candi- daturas consolidadas. Harari já alertava: sistemas caóticos são sensíveis a mínimas variações. Mas a política vai além. Ela não é como o clima (caos de nível 1), que ignora nossas previsões. Ela é como o mercado financeiro: se você antevê uma vitória de Lula em 2026, os adversários recalibram suas estra- tégias, a mídia muda o tom, e o próprio eleitorado se reposiciona. A previsão altera o previsto.
Imagine dois grupos internos de um partido em guerra pela indicação de um candidato. Um terceiro grupo, marginal, posta uma foto ambígua com um adversário e a legenda "decisões sendo tomadas". Não há contexto, apenas suspeita. No entanto, esse ruído basta para realinhar alianças, quebrar lealdades e criar um cenário totalmente novo. Uma fagulha gera um incêndio – e ninguém controla o vento.
As velhas estratégias de poder estão obsoletas. Dinheiro, estrutura partidária e aparelhamento midiático já não garantem nada. O que prevalece agora é a capacidade de improvisar no caos. Quem ainda acredita em controle absoluto – seja o cen- trão, seja a esquerda radical – está fadado a dois destinos: a) a loucura, tentando impor ordem onde só há turbulência; ou b) o fracasso, desperdiçando milhões em campanhas que se tornam irrelevantes em uma semana.
A política nunca foi determinista. E, na era da informação instantânea, ela é menos previsível do que nunca. Resta uma escolha: adaptar-se ao caos ou ser engolido por ele.
Jamir Calili, membro da Academia Valadarense de Letras, professor na UFJF, cientista social, advogado e vereador.





