POR LEONARDO VIEIRA
Amar os filhos é protegê-los. Isso é natural, saudável e necessário. Desde o primeiro choro, pais e mães sentem o impulso de evitar dores, frustrações e dificuldades. No entanto, existe uma diferença importante entre cuidar e impedir que os filhos aprendam a viver.
Quando os pais resolvem tudo pelos filhos, evitam qualquer desconforto, tomam todas as decisões e não permitem que enfrentem pequenas responsabilidades, podem acabar criando, ainda que sem perceber, adultos inseguros, dependentes e emocionalmente frágeis.
A superproteção muitas vezes nasce mais da insegurança dos pais do que do amor propriamente dito. E seus efeitos podem impactar profundamente o desenvolvimento emocional dos filhos. Crianças e adolescentes que crescem sem experimentar consequências, sem lidar com frustrações e sem assumir responsabilidades tendem a apresentar mais dificuldades para enfrentar a vida adulta, os relacionamentos, o ambiente de trabalho e até mesmo os próprios sentimentos.
Uma criança precisa aprender, aos poucos, que é capaz. Os pais precisam permitir que os filhos compreendam que ao cair, vai doer sim, pode chorar, o estimule a levantar e ai sim acolha o filho e não que” não é nada”,” não chore”,” não tá doendo” a compreensão que cair em algum momento da vida faz parte do processo de existir: vai doer, mas depois será possível levantar e continuar caminhando. A criança também precisa ser autorizada a errar — de forma orientada e segura — para desenvolver maturidade emocional e resiliência.
Ouvir “não”, assumir pequenas tarefas diárias em casa, independentemente da classe social, resolver conflitos e perceber que a vida nem sempre será confortável são experiências fundamentais para a construção da autonomia e da existência humana. Afinal, grande parte da vida exige adaptação, tolerância à frustração e responsabilidade.
Pais que fazem tudo pelos filhos podem, sem perceber, impedir que eles descubram a própria força. Ao tentar protegê-los excessivamente de um mundo difícil, angustiante e muitas vezes injusto, acabam limitando o desenvolvimento de habilidades emocionais essenciais para lidar com a realidade.
Quando oferecemos tudo com extrema facilidade, sem que os filhos precisem se esforçar, esperar ou aprender a conquistar, existe o risco de criarmos adultos com baixa tolerância às dificuldades. O mundo fora do ambiente familiar não funcionará com o mesmo nível de proteção, cuidado e flexibilização que muitas vezes existe dentro de casa.
É importante refletir sobre isso. Muitos pais agem movidos pela dor de suas próprias histórias: “Não quero que meu filho passe pelo que eu passei”. Embora essa intenção seja compreensível, é necessário cuidado. Em muitos casos, a diferença entre o remédio e o veneno está na dosagem.
Educar exige equilíbrio. Proteger é necessário; superproteger pode ser prejudicial. Respeitar cada etapa do desenvolvimento infantil e adolescente é fundamental. Dar amparo faz parte do papel dos pais. Porém, é preciso evitar a ideia de que escolas, grupos sociais e todas as pessoas ao redor devam se adaptar constantemente aos desejos e necessidades dos filhos. Quando isso acontece de maneira excessiva, pode-se reforçar a crença de que o mundo sempre atenderá às suas expectativas, dificultando a construção da resiliência emocional.
Tenho observado cada vez mais presente na clínica a presença de jovens extremamente vulneráveis emocionalmente, com grande dificuldade para lidar com frustrações, críticas, limites e responsabilidades. Muitas vezes, esses jovens foram privados da oportunidade de desenvolver habilidades básicas para enfrentar a existência, justamente porque foram excessivamente protegidos e os pais muito orgulhosos porque criaram os filhos dentro de uma redoma, não precisavam cuidar do seu próprio quarto, lavar os tênis, aprender a fazer uma comida, andar de bicicleta na rua, pegar um ônibus a escola e os professores que estudavam tinham que fazer de tudo para se adaptar aos filhos, inclusive nem poderiam mais chamar atenção deles, é claro que os marcos do desenvolvimento devem ser observados e respeitados, mas o que percebi em algumas vezes não era isso é que, o filho não pode perceber que é difícil demais ou sofrer, encoraja-lo e mostrar que realmente não é fácil e ouvir, acolher e estimulá-lo a encontrar formas de lidar com a situação difícil e superar não era uma opção e sim os que estão em sua volta que devem fazer o que for necessário para que não haja incômodos.
Educar não é eliminar todos os obstáculos do caminho. Educar é preparar os filhos para atravessá-los. O excesso de proteção transmite, ainda que silenciosamente, uma mensagem perigosa: “Você não consegue sozinho”. Com o tempo, isso enfraquece a autoconfiança e favorece a dependência constante da aprovação, ajuda ou direção de outras pessoas.
Criar filhos emocionalmente saudáveis exige coragem dos pais. Coragem para permitir que cresçam. Coragem para tolerar vê-los frustrados algumas vezes. Coragem para compreender que amor não significa controle absoluto, mas preparação para a independência.
O maior objetivo da educação não deveria ser criar filhos eternamente protegidos, mas adultos capazes de cuidar de si mesmos, fazer escolhas conscientes e enfrentar a vida com equilíbrio e responsabilidade. O psicanalista Donald Winnicott, desenvolveu o conceito da mãe suficientemente boa é aquela progressivamente vai se tornando desnecessária aos filhos pois aprenderam a ser autônomos e independentes. Em tempos atuais, devemos compreender que pais (não só a mãe) suficientemente bons são os que, ao longo do tempo se tornam desnecessários aos seus filhos pois os mesmos já conseguem lidar com este mundo que realmente é difícil, mas que é muito gratificante sentir-se como um ser capaz de lidar com suas próprias dificuldades, isso é um dos maiores legados que deixamos a eles e não filhos angustiados por ter que lidar com um mundo mais difícil que já é com a sensação de incapacidade por consequência de uma educação superprotetora. Isso não significa abandonar ou endurecer excessivamente a educação. Significa preparar emocionalmente os filhos para a realidade, oferecendo amor, apoio, limites e oportunidades de crescimento.
Porque um dia os pais não estarão presentes em todos os momentos. E, nesse dia, o que sustentará os filhos não será o quanto foram poupados da vida, mas o quanto foram preparados para vivê-la da forma mais plena possível
Sobre o autor
Leonardo Sandro Vieira
Mestre, especialista em Terapia Cognitivo de Esquemas, em Neurologia e Neurociências.
Psicólogo CRP: CRP: 4329/04
Contatos: 33-988186858




