Por Edson Panes
Entre os dias 2 e 7 de fevereiro de 2026, o Partido dos Trabalhadores (PT) realizou seu Encontro Nacional em Salvador, Bahia, celebrando 46 anos de história e definindo suas estratégias para as eleições presidenciais deste ano. Além de reforçar posicionamentos históricos, como a defesa da soberania nacional e a ampliação dos direitos sociais, o evento destacou um ponto crucial: a comunicação. O partido sinalizou que a forma como se relaciona com o eleitorado será um dos componentes mais decisivos no cenário eleitoral de 2026.
Como especialista em marketing político, apresento aqui uma análise das diretrizes comunicacionais adotadas pelo PT e o que podemos esperar para sua estratégia de pré-campanha, à luz do que foi discutido no evento em Salvador.
1. Aposta no Digital: Redes Sociais como Instrumento de Engajamento
Um dos principais destaques do Encontro Nacional foi o foco em modernizar a comunicação nas redes sociais. O PT reconheceu que precisa alcançar públicos mais jovens e periféricos que, embora tradicionalmente aliados, vêm perdendo conexão com o partido. Para isso, a estratégia inclui:
- Uso de Inteligência Artificial (IA): A criação de vídeos curtos e impactantes com potencial para viralizar será sistematicamente impulsionada pelo uso de ferramentas de IA. Estes conteúdos se concentrarão em narrativas que contrastam a realidade da população comum com a dos setores privilegiados, reforçando a luta por justiça social.
- Presença Ampliada em Plataformas Jovens: TikTok, Instagram e Kwai, plataformas amplamente utilizadas pelo público jovem, serão prioritárias. A intenção é adaptar a mensagem às características dinâmicas dessas redes, tornando o discurso direto, acessível e visualmente atraente.
- Combate à Desinformação: O PT se comprometeu a redobrar esforços para combater narrativas falsas que frequentemente circulam contra o partido. Estratégias para organização de “núcleos digitais” mostram que a comunicação combativa será incrementada, com respostas rápidas e coordenação entre militantes digitais.
Este movimento evidencia que o partido está atento às mudanças na dinâmica de comunicação política, onde o espaço digital tem um peso crescente na formação de opinião do eleitorado.
2. Mobilização de Influenciadores para a Amplificação da Mensagem
Reconhecendo o papel transformador dos influenciadores digitais no debate político, o PT intensificou sua relação com criadores de conteúdo. Foram realizadas reuniões com mais de 200 influenciadores para alinhar estratégias e fortalecer discursos.
A campanha do PT deverá focar em temas como:
- A "taxação BBB" — bilionários, bancos e apostas digitais —, uma pauta que tem grande apelo junto às classes populares e jovens, reforçando o discurso anti-elitista;
- Reflexões sobre direito social e redistribuição de renda, temas que se conectarão fortemente com microinfluenciadores de nichos culturais, sociais e econômicos.
Esta abordagem descentralizada permite ao PT atingir bolhas sociais diferenciadas, extrapolando os limites de sua militância tradicional e criando eco nas vozes de influenciadores, que possuem credibilidade com seus públicos específicos.
3. Alinhamento Nacional do Discurso: Um PT Coeso
Durante o encontro, foram promovidas reuniões com os secretários de comunicação dos 26 estados para garantir que o discurso do partido siga uma narrativa coesa. O foco estará em:
- Comparar os avanços da atual gestão Lula com o governo anterior, destacando ganhos em justiça tributária, soberania nacional e programas sociais;
- Ampliar a identidade partidária com base em eixos estratégicos, de forma a fortalecer tanto o núcleo militante quanto os novos apoiadores conquistados.
O alinhamento de mensagens é particularmente importante para evitar dissonâncias regionais em uma campanha nacional. Este movimento reflete a maturidade do PT em compreender que consistência na comunicação fortalece sua narrativa política.
4. Reforço na Comunicação Sob o Prisma Ideológico
O partido também contará com o papel da Fundação Perseu Abramo, think tank responsável por elaborar conteúdos ideológicos e educar a militância. Isso inclui:
- Desenvolver embasamento teórico para o discurso;
- Fortalecer a narrativa de valorização do Estado como ferramenta de redução de desigualdades.
Esperamos que o PT explore fortemente as diferenças de posicionamento ideológico em relação a seus adversários, sem abrir mão de apresentar propostas concretas que mostrem como implementar essas ideias na prática.
5. Uso Estratégico de Salvador como Símbolo na Comunicação
A escolha de Salvador para sediar o Encontro Nacional não foi aleatória. Governada por Jerônimo Rodrigues (PT), a Bahia é uma vitrine do modelo de gestão petista, com investimentos em programas sociais e ampla coligação política. A cidade será utilizada como exemplo positivo nos conteúdos da pré-campanha, destacando conquistas que o partido pretende replicar a nível nacional.
O apelo simbólico do Nordeste, especialmente no que diz respeito ao papel do eleitorado nordestino na última década, será um dos pilares das narrativas eleitorais em 2026.
Conclusão: Uma Comunicação Ambiciosa e Renovada
Fica claro que o PT está disposto a apostar em inovação para a comunicação de 2026, combinando novas ferramentas tecnológicas com estratégias orgânicas que já demonstraram eficácia no passado. Enquanto o partido reforça seu histórico de luta por direitos sociais, está também atento à necessidade de capturar a atenção de um público mais conectado e dinâmico.
Porém, a modernização comunicacional exigirá esforços cuidadosos para não alienar um eleitorado mais tradicional. O desafio será utilizar a tecnologia e as novas plataformas sem perder o legado histórico que consolidou o Partido dos Trabalhadores como um dos maiores da América Latina.
Se bem executada, essa estratégia pode definir mais do que eleição de 2026: ela garantirá um futuro onde o PT continuará a influenciar o cenário político brasileiro.
Sobre o autor
Edson Panes de Oliveira Filho é advogado e Estrategista Politico, Especialista em Direito Eleitoral, com MBA em Direito Empresarial, MBA em Gestão de Pessoas e MBA em Comunicação Governamental e Marketing Político, proprietário da CRIA Marketing Digital e Politico e cofundador do Alcateia Política.





