POR MARCELA FANNI
Existe um erro histórico na forma como o Brasil enxerga a saúde: a ideia de que qualidade se constrói, essencialmente, dentro de hospitais. Essa lógica sustenta o colapso do sistema. Enquanto o hospital for a porta de entrada e os recursos focarem na doença já agravada, teremos filas crescentes e custos insustentáveis. A incapacidade de organizar uma Atenção Primária à Saúde (APS) forte alimenta um modelo caro, reativo e ineficiente.
A verdadeira sustentabilidade não está na alta complexidade, mas na capacidade de evitar que o paciente precise dela. É justamente essa a função da atenção primária: coordenar o cuidado, monitorar pacientes crônicos e reduzir a pressão sobre os níveis mais caros da assistência. Ainda assim, ela segue sendo tratada como um serviço “simples” ou alternativa para quem não acessa o restante do sistema. Este é um dos maiores erros de gestão da saúde brasileira.
Quando a atenção primária falha, o sistema adoece. O pronto-socorro absorve casos da unidade básica e o tratamento de doenças avançadas consome recursos que financiariam a prevenção. Sistemas eficientes não se sustentam pela expansão hospitalar, mas pela organização do cuidado antes do agravamento.
E aqui existe uma contradição importante: discute-se exaustivamente financiamento, mas investe-se pouco na organização inteligente da assistência. Como abordado nas colunas anteriores, o desafio é de método e execução. Continuamos operando em uma lógica reativa, focada na doença instalada, quando o caminho sustentável sempre esteve na prevenção e na gestão longitudinal do paciente.
Fortalecer a APS não significa apenas abrir unidades ou ampliar consultas. Significa estruturar equipes, integrar informações, utilizar dados para mapear riscos e transformar atendimento em acompanhamento real. Em um sistema orientado a valor, a base precisa assumir o papel de coordenadora do cuidado. Se ela é frágil, todo o restante se torna ineficaz.
O futuro da saúde não será definido pela quantidade de hospitais, mas pela capacidade de evitar que as pessoas precisem chegar até eles.
Sobre a autora
Marcela Fanni é preceptora de Gestão em Saúde no curso de Medicina da Univale. Mestre em Engenharia Química e especialista em Gerenciamento de Projetos, atua no desenvolvimento de projetos de saúde e gestão pública.




