Na tarde desta terça-feira (30), a Câmara Municipal de Governador Valadares realizou audiência pública proposta pela vereadora Fernanda Braz, que teve como tema a prevenção e pósvenção do suicídio. A reunião foi solicitada pelo Grupo de Apoio a Enlutados por Suicídio (GAES/GV), que, desde 2023, tem atuado no município com profissionais voluntários.
A vereadora Fernanda Braz destacou a urgência do debate e a relevância de transformar a dor da perda em ação concreta, propondo o fortalecimento de políticas públicas de saúde mental.
“Estamos tratando de um tema sensível e urgente, com o objetivo de transformar dor em ação, fortalecer políticas públicas e promover uma cidade que cuida da saúde mental de seus cidadãos”, afirmou.
A audiência contou com a participação de diversos profissionais da saúde, como o psiquiatra Pedro Colen, que abordou a importância da definição e execução de políticas públicas efetivas para a prevenção e pósvenção do suicídio. Colen ressaltou a necessidade de estratégias de saúde pública para reduzir os índices de suicídios, destacando que, enquanto a taxa global de suicídios é uma preocupação, muitos países já implementaram medidas eficazes que resultaram em quedas nas estatísticas.
“Desde que a humanidade existe, o suicídio tem sido um tema difícil de discutir, cercado por questões culturais e históricas. Porém, é crucial que tratemos o suicídio como um problema de saúde pública, com políticas focadas na prevenção e apoio aos enlutados”, reforçou o psiquiatra.
Cenário
Durante a audiência, foram apresentados dados preocupantes sobre o suicídio no Brasil e na cidade de Governador Valadares. Segundo Pedro Colen, a taxa de suicídios no Brasil gira em torno de 8 a 9 por 100 mil habitantes, com um impacto ainda mais alto entre grupos específicos, como os militares, onde a taxa pode atingir 17%. No cenário local, a cidade tem cerca de 22 mortes por suicídio anualmente, o que representa um problema de saúde pública que afeta profundamente a sociedade.
Lorraine Pereira Chagas, referência técnica em violência da Gerência de Epidemiologia de Governador Valadares, apresentou números detalhados sobre tentativas de suicídio e óbitos relacionados no município entre 2015 e 2024. O aumento de casos registrados em 2023 e a previsão de um número elevado de casos para 2024 – os dados ainda não foram finalizados – indicam uma necessidade urgente de políticas públicas e programas de conscientização.
Impacto familiar e o luto por suicídio
A psicóloga Marcela Rezende Sampaio, moderadora do GAES/GV, abordou a complexidade do luto por suicídio, enfatizando que este tipo de perda gera uma dor intensificada por sentimentos de culpa e incompreensão social. Ela afirmou que o suicídio não deve ser visto como uma escolha, mas como um reflexo de um adoecimento mental que impede a pessoa de enxergar outras alternativas.
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Vários enlutados compartilharam suas histórias, entre eles, Luciana Monteiro, mãe de Guilherme, que se suicidou aos 25 anos, Amarildo Costa, que perdeu sua esposa após 28 anos de casamento e Maria Ignês, cuja filha tirou a vida há 6 anos. Os três destacaram a importância do apoio do GAES e de grupos semelhantes para lidar com o sofrimento e encontrar suporte.
Propostas
Ao final da audiência, a vereadora Fernanda Braz apresentou propostas de requerimentos para enfrentar o problema do suicídio em Valadares. Entre as sugestões, estão a realização de um seminário municipal sobre prevenção e pósvenção do suicídio no primeiro semestre de 2026 – sugerido pelo GAES/GV -, a instituição de protocolos de atendimento às famílias enlutadas e a ampliação da equipe multiprofissional da saúde mental no município, com destaque para psicólogos, psiquiatras e assistentes sociais.
Além disso, foi sugerido o mapeamento de pontos críticos, como pontes e viadutos, que historicamente registram tentativas de suicídio na cidade, com o intuito de criar estratégias de prevenção mais eficazes.
Desafios
Ao longo da discussão, foi ressaltado que, apesar de avanços como a criação da Política Nacional de Prevenção ao Suicídio e a parceria com o CVV, a rede de atendimento pública no Brasil ainda é disfuncional e precisa ser melhor articulada. A falta de capacitação continuada dos profissionais da saúde e a escassez de ações integradas entre as diversas esferas do sistema público de saúde dificultam o atendimento efetivo às vítimas de tentativas de suicídio.
A audiência foi um momento de conscientização e de apelo para que o poder público adote medidas mais concretas e eficazes para enfrentar a crise do suicídio. Como destacou um dos participantes: “O suicídio é uma morte evitável, e a sociedade precisa se unir para combater essa realidade.”
Ao final, Fernanda Braz agradeceu a todos os enlutados pela coragem de compartilhar suas histórias e reforçou o compromisso de levar adiante a luta por mais políticas públicas voltadas à prevenção do suicídio. Ela concluiu a audiência com a promessa de que as propostas serão apresentadas na Câmara Municipal e encaminhadas ao Executivo.

Foto: Divulgação Câmara de GV
