Por Leonardo Vieira
Quem cuida de quem cuida?
Psicóloga Carla Reis
Há uma frase do brilhante pediatra e psicanalista inglês Donald Winnicott que diz:
“É uma delícia se esconder e uma catástrofe não ser encontrado.”
Winnicott nos lembra que se esconder pode ser saudável — recolher-se, ter momentos de solitude (e não de solidão), refletir e cultivar um espaço interno de segurança e conforto. Entretanto, quando esse “esconder-se” transforma-se em uma barreira que impede o outro de nos encontrar — seja física, afetiva ou emocionalmente —, ele se torna destrutivo. Nesse ponto, corremos o risco de perder vínculos, o prazer de viver e a conexão com nossos sonhos, objetivos e afetos.
Mas o que essa reflexão tem a ver com o título deste texto?
Na prática clínica e em conversas com profissionais da saúde mental, tem se tornado cada vez mais evidente que aqueles que se acostumaram a cuidar dos outros — e de tudo ao redor — muitas vezes esquecem de cuidar de si mesmos. E são justamente esses
os mais suscetíveis ao adoecimento. Estudos científicos têm demonstrado que profissionais e cuidadores que negligenciam o autocuidado apresentam maior risco para sintomas ansiosos, depressivos e para o desenvolvimento da síndrome de burnout.
É comum receber pacientes, em sua maioria, com sintomas de esgotamento emocional e físico, resultantes de uma sobrecarga constante. Em quase todas as famílias, ou mesmo em ambientes profissionais, igrejas ou ambientes sociais há aquela pessoa a quem todos recorrem — seja para resolver algo simples, como marcar uma consulta, ou para lidar com situações complexas. Essa figura, o “porto seguro” do grupo, é frequentemente lembrada para ajudar, mas raramente lembrada para ser cuidada.
Esquecemos, no entanto, que essas pessoas também têm limites. E quando esses limites são ignorados, o corpo e a mente encontram formas de manifestar o desequilíbrio. Surge então a pergunta essencial: quem cuida de quem cuida?
Muitas vezes, é cômodo para o entorno que essa pessoa continue nesse papel, e ela própria já incorporou essa função a ponto de não saber a quem recorrer quando adoece. Em alguns casos, há ainda a crença de que pedir ajuda é sinal de fraqueza, ou a ideia equivocada de que “preciso dar conta de tudo sozinha”. Mas a vida não é — nem deve ser — assim. Será que mesmo sem perceber não assumi um papel de pessoa orgulhosa? Onde é tão difícil e doloroso ter que aceitar a ajuda do outro?
É importante se perguntar: por que assumi esse papel de pilar, de alicerce, de porto seguro? Seria pela necessidade de ser vista? Pela ausência de validação emocional na infância? Pelo desejo de pertencer ou pela dificuldade de estabelecer limites?
Essas perguntas não são simples, e talvez levem tempo para serem respondidas. Mas há sempre tempo para mudança. O ponto de partida é reconhecer que o outro não é nossa responsabilidade — a não ser em casos específicos, como o cuidado parental de filhos pequenos ou algum outro caso de vulnerabilidade. Aprender a cuidar de si não é egoísmo: é um ato de amor. Amor por si e, consequentemente, pelo outro.
Não espere a gota d’água para transbordar e buscar ajuda, se conheça a ponto de saber até onde você aguenta.
O olhar voltado para si é o que permite que o cuidado seja genuíno, equilibrado e sustentável. Porque, no fim das contas, ninguém pode oferecer ao outro aquilo que não cultiva em si.
Psicóloga Carla Reis CRP 04/29862





