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Anjos em Itambacuri

A cidade se enche de um brilho discreto - de vela acesa em janela, de terço na mão, de promessa antiga sendo revista em silêncio. A novena vai aquecendo os corações
A imagem de Nossa Senhora dos Anjos passeia pelas ruas de Itambacuri. Foto: Divulgação
sexta-feira, 25 julho, 2025

POR EDMUNDO ALVARENGA

Em Itambacuri, quando julho começa a se despedir e agosto ensaia seus primeiros passos, um certo clima diferente paira no ar. Não é só o vento que muda, é o coração do povo que começa a bater diferente. Porque vem aí a Festa de Nossa Senhora dos Anjos, e quem é de lá sabe que não é qualquer festa. É fé que se veste de festa. Ou talvez, festa vestida de fé. Tanto faz, porque o que importa mesmo é o que se sente.

Tudo começa com a Carreata do Anúncio, que não tem como passar despercebida. Carro enfeitado, buzina tocando, povo acenando da calçada, criança correndo atrás. E ali, no meio daquele barulho bom, a comunidade inteira parece lembrar: 'É hora de se preparar. Nossa Senhora dos Anjos está chegando!...

A cidade se enche de um brilho discreto - de vela acesa em janela, de terço na mão, de promessa antiga sendo revista em silêncio. A novena vai aquecendo os corações. Cada noite tem um tema, um padre convidado, um coral diferente... mas a emoção é sempre a mesma. Ali, entre um cântico e outro, Itambacuri vai se reencontrando com sua 'alma franciscana'.

E quando chega o 2 de agosto, ah... o dia amanhece com outro tipo de luz. É a Missa Solene no Santuário. Gente chegando cedo, colocando a melhor roupa, o melhor perfume, e principalmente, levando o melhor de si. A cidade inteira parece ajoelhar-se. E ali, naquele altar, brota uma fé que não cabe em palavras.

Depois, claro, vem a procissão. Longa, bonita, cheia de passos e preces. A imagem de Nossa Senhora dos Anjos passeia pelas ruas como quem visita sua própria casa, e cada um ali se sente pessoalmente abençoado. Gente andando descalça, outros de branco, outros apenas em silêncio, mas todos em sintonia. E quando ela passa, até quem não acredita se pega fazendo o sinal da cruz.

Mas nem só de reza vive a festa. Tem também o cheiro bom da feira gastronômica, o som do forró que ressurge nas noites frescas, a moçada reencontrando os amigos da infância. Sâmara Nick [amiga 'agora' íntima do primo capixaba famoso], por exemplo, se derrete toda falando da fé que aprendeu ali, desde pequena. Já Mariza Alves Pereira Coutinho, se emociona com as lembranças da família.

Da numerosa família...

Porque a Festa de Nossa Senhora dos Anjos não é só evento religioso. É parte da identidade de Itambacuri. É encontro, é lágrima escondida no canto do olho, é abraço apertado na saída da missa, é o reencontro da cidade consigo mesma.

Este cronista já esteve nessa festa em 1981. Fiquei hospedado na casa da família da Mariza. Fui muito bem tratado por todos, em especial pela matriarca, Dona Hilda. E a gente que já foi marcado por essa festa sabe: Itambacuri pode ter mil nomes, mas em agosto, ela atende mesmo é por 'Cidade Franciscana'. E com toda razão. Porque ali, durante esses dias sagrados, até os anjos descem pra caminhar junto com o povo.

Edmundo Alvarenga
* Crônica feita a partir de pesquisa sobre a festa.

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