por Jamir Calili
Vivemos, sem dúvida, um período de crise. A definição clássica aponta a crise como o momento em que uma estrutura deixa de funcionar adequadamente, gerando tensão e necessidade urgente de mudança ou adaptação. É evidente o esgarçamento das instituições sociais, econômicas, jurídicas e políticas, com a predominância da desconfiança, da beligerância e da desagregação social. Soma-se a isso a contaminação de esferas distintas: argumentos políticos são usados para questões econômicas e jurídicas, e vice-versa. É justamente nesses momentos que a verdadeira liderança se revela. Em mares calmos, qualquer governante navega bem; mas nas turbulências políticas e ameaças à democracia, líderes mostram sua essência — seja para apaziguar ou para inflamar ainda mais a crise.
E é aí que reside o perigo: vivemos um tempo em que muitos líderes preferem jogar gasolina na fogueira a construir pontes para o diálogo. O cenário é dominado por mensagens contraditórias, discursos explosivos e reações desproporcionais, dificultando à população a compreensão de quais rumos nos tirariam desse mar revolto.
A semana ilustrou bem isso. O anúncio do chamado “tarifaço” por Donald Trump, com sobretaxa de 50% sobre os produtos brasileiros, desencadeou um turbilhão que testou a liderança de Luiz Inácio Lula da Silva e Jair Bolsonaro. O método de Trump é bem conhecido: Brasil, China, União Europeia, Canadá, México e até o Reino Unido já enfrentaram sua política do “morde e assopra”. No entanto, neste episódio, as justificativas jurídicas e políticas surpreenderam: exigências sobre temas internos brasileiros, como projetos de lei e decisões judiciais, foram utilizadas como moeda de troca.
Independentemente do mérito — como a anistia ou julgamentos no Supremo Tribunal Federal —, é anômalo que questões comerciais sejam usadas para influenciar temas de soberania nacional. E mesmo que houvesse verdade em acusações de “ditadura”, Trump tem histórico de negociar tranquilamente com regimes autoritários.
O episódio ganhou contornos ainda mais estranhos com a atuação da família do ex-presidente Jair Bolsonaro, apoiando uma medida que atinge toda a população e a economia nacional, e não apenas seus opositores. Independentemente da ideologia, não é razoável endossar articulações que produzirão prejuízos irrecuperáveis ao país. É surpreendente ver tamanho erro estratégico vindo de quem pretende voltar ao poder. Um erro que, além de prejudicar o país, atrapalha potenciais candidaturas como Tarcísio, Zema, Caiado e Ratinho Júnior, que agora enfrentam o dilema de como resolver uma crise criada por interesses pessoais.
Do lado do Governo Lula, a reação também é questionável. Cabe ao presidente defender a soberania nacional — é seu papel. Mas os discursos provocativos beiram a inutilidade. Não se trata de condenar a defesa dos interesses nacionais, mas de questionar a estratégia de adotar postura pública inflamável, como se fosse líder de torcida. Lula deveria ser o chefe de Estado preocupado em resolver o problema, e não alguém disposto a atiçar o presidente mais intempestivo do mundo. Não se trata de submissão, mas de sabedoria: defender o país sem alimentar a crise.
Apesar da disparidade econômica, os EUA têm interesse no Brasil. Somos cerca de 1,5% do mercado importador americano e destino de pouco mais de 1,5% das exportações dos EUA, enquanto 12% das exportações brasileiras vão para lá. A diversidade de parceiros comerciais é desigual, mas o Brasil exporta insumos essenciais para setores estratégicos dos EUA, afetando inflação e cadeias produtivas. É possível negociar sem perder soberania, com firmeza, mas também com estratégia. Até porque, é preciso relembrar, numa guerra deste tipo nossas vantagens são menores, nossos riscos maiores e nossas oportunidades menores. Vamos sentir um impacto maior do que a economia americana.
É viável resolver nossos problemas internos com soberania e respeito internacional, sem incendiar uma crise que, no curto prazo, até pode render ganhos eleitorais, mas que terá custos econômicos no pior momento: o período eleitoral. Isso não interessa ao país, nem ao governo. Cadenciar melhor as manifestações públicas não é ser submisso, mas é ter sabedoria, especialmente entendendo que muitas vezes é preciso agir silenciosamente para obter o que se quer, sem ceder o que não se pode.
O livro “As 48 Leis do Poder”, de Robert Greene, mostra como o poder pode ser usado com estratégia ou pode ser mal utilizado para acirrar divisões e desgastar instituições. O poder pelo poder é sempre um risco. Em momentos difíceis, o país precisa de líderes que vão além do espetáculo — líderes responsáveis e comprometidos com o bem comum. Holofotes não salvam a economia e discursos inflamados não garantem estabilidade. A história ensina: liderança não é manter o poder a qualquer preço, mas conduzir a sociedade pela tempestade, em vez de gerar ondas ainda maiores.
Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.