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O Dom da Paternidade

Leia a coluna desta semana de Jamir Calili
Paternidade. Foto: Reprodução da Internet
domingo, 10 agosto, 2025

por Jamir Calili

Neste Dia dos Pais, o convite que se impõe é mais profundo do que uma lembrança protocolar ou comercial. É uma pausa para refletir sobre o que significa ser pai — não apenas no sentido biológico, mas no sentido mais pleno e humano. Ser pai é mais do que ter gerado alguém. É ter assumido a missão de cuidar, orientar e amar incondicionalmente um outro ser, oferecendo-lhe não apenas abrigo físico, mas direção moral, equilíbrio afetivo e valores que o conduzam com dignidade pela vida.

A paternidade, quando vivida com consciência, é um dos maiores exercícios de amor que alguém pode experimentar. É participar, de certa forma, do próprio ato criador de Deus, sendo instrumento de formação, de crescimento e de renovação. Quando um pai segura seu filho nos braços pela primeira vez, algo muda para sempre. O coração se amplia, a alma se alarga, e nasce ali um compromisso eterno. É, em um só tempo, o que temos de mais similar com o divino, pois somos cocriadores e zeladores de outras vidas e uma verdadeira missão delegada pelo Criador para cumprir sua vontade soberana. E como representantes da vontade soberana, precisaremos, por óbvio, prestar contas de nossas ações e por isto deve ser desenvolvida com a máxima retidão moral possível.

Essa missão, é claro, não vem com manual. Nenhum pai está pronto de antemão. Aprende-se no dia a dia, entre erros e acertos, noites mal dormidas, preocupações e alegrias e, também, com a conhecimento disponível. Mas aqueles que perseveram nessa tarefa descobrem que estão, também eles, sendo moldados. Porque ao formar seus filhos, os pais também se transformam.

O lar é a primeira escola. E os pais, seus primeiros professores. Muito do que uma criança levará para a vida se constrói nos primeiros anos: o exemplo, o olhar, a palavra, a escuta, o afeto, os limites, a justiça com ternura. Ensinar pelo exemplo é a lição mais eficaz — e a mais exigente. Por isso, o papel paterno não se resume ao sustento material. Ele se revela, principalmente, no cultivo diário dos valores morais: o respeito, a honestidade, o trabalho, a solidariedade, o amor ao próximo.

A missão paterna envolve também a coragem de corrigir, de dizer não, de apontar o caminho certo mesmo quando ele é o mais difícil. O pai é muitas vezes o guardião da disciplina, mas essa disciplina só tem valor quando nasce do amor e da vontade sincera de ver o filho crescer por dentro, e não apenas por fora. A grandeza da paternidade está em formar o caráter, em ajudar o filho a ser alguém inteiro, mesmo que o mundo lá fora tente desmanchá-lo.

Mas é preciso dizer: a paternidade vai além dos laços de sangue. Há pais que não geraram, mas criaram. Pais que chegaram depois, mas foram o colo firme na hora certa. Há tios, avôs, irmãos, padrastos, mães que exerceram o papel de pai com dignidade e amor. E todos eles merecem o mesmo reconhecimento, porque a verdadeira paternidade não é biológica — é espiritual, é moral, é afetiva.

Lembremos, com emoção, do exemplo de José, esposo de Maria, que acolheu Jesus como filho sem ser seu pai de sangue. Coube a José ensinar valores, a arte do ofício,

a importância da retidão e do trabalho. Foi ele quem o protegeu nos perigos e o sustentou nos caminhos. José é símbolo de tantos pais que assumem, por amor, um lugar essencial na vida de alguém. E nos mostra que ser pai é muito mais uma decisão do que uma herança genética.

Há também os pais silenciosos, que nunca se gabam dos sacrifícios feitos. Os que deixaram de realizar sonhos para garantir os sonhos dos filhos. Os que trabalharam anos a fio, muitas vezes invisíveis, para que nada faltasse em casa. Os que envelheceram sustentando o lar e, mesmo cansados, nunca deixaram de ser abrigo. Esses pais merecem não só um presente, mas nossa presença, nosso cuidado, nossa gratidão.

E se por acaso você, pai, sente que falhou — não desista. Sempre é tempo de recomeçar. Paternidade é um trabalho espiritual em andamento. Nenhum pai é perfeito, mas todos podemos ser melhores do que fomos ontem. Amar, reconhecer os erros, pedir perdão, estar presente — tudo isso já é parte da redenção que transforma.

E se você, filho ou filha, teve um pai ausente, ou difícil, talvez reste uma tarefa ainda mais elevada: a de perdoar e entender que, muitas vezes, por trás da rigidez ou do silêncio, existia um homem ferido, tentando acertar do seu jeito limitado. Cada um carrega sua história. E o perdão, quando sincero, é também um gesto de amor que liberta.

A paternidade é um dom, uma missão e um caminho. Um chamado a viver o amor em sua forma mais prática, mais exigente e mais transformadora. Neste domingo, celebremos todos os que responderam — e ainda respondem — a esse chamado com coragem e ternura.

A todos os pais da vida — biológicos, adotivos, afetivos, presentes, renascentes — nossa homenagem e nosso abraço. Que o amor que vocês plantam nos corações de seus filhos floresça em paz, fé e esperança. E que Deus, o Pai de todos nós, siga iluminando cada passo dessa jornada tão sagrada.

Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.

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