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Política: do espetáculo ao serviço

Leia a coluna desta semana de Jamir Calili
Política. Foto: Reprodução da Internet
domingo, 27 julho, 2025

por Jamir Calili

Nos últimos tempos, a política brasileira e mundial tem oscilado entre espetáculo e desgaste. Assistimos, quase que diariamente, a uma sucessão de escândalos, confrontos retóricos, disputas ideológicas e decisões que parecem mais voltadas a agradar suas bolhas do que a servir à população. É como se o país estivesse viciado em adrenalina institucional. Mas será que foi para isso que a política nasceu?

Nas redes sociais, especialistas em comunicação política afirmam: o eleitor não quer saber o que você pensa, mas por quem você briga, não há espaço para neutralidade ou falas complexas. É preciso nomear inimigos, apelar ao medo, à raiva e personalizar conflitos. Sem isso, dizem, não há sobrevivência política nas redes. A técnica substitui o conteúdo. O posicionamento deve ser de guerra, com um inimigo claro, e a comunicação guiada por medo, prazer ou raiva. Sem isso, o político e sua política não sobreviverão em tempos de rede social. Debates técnicos e racionais, explicar soluções complexas para os problemas não merecem atenção do eleitor. É preciso acusar o outro de traidor, vendido, não patriota e autoritário. Não há espaço para compreender a complexidade humana.

Esse diagnóstico parece correto ao analisarmos os campeões de voto. Há espaço para líderes que se destacam pelo embate, embora muitos políticos sigam focados em resolver problemas concretos. A tragédia é quando figuras decorativas, inaptas para decisões estratégicas, ocupam cargos-chave. Como li certa vez: "homens pequenos em tronos grandes", buscando sempre as honrarias, o prestígio, a idolatria a si, guiados pela admiração momentânea sem gerar compromissos coerentes e de longo prazo.

A política, no seu conceito mais puro, é o espaço do comum. Aristóteles a chamava de “a arte de buscar o bem da cidade”. Jesus, embora não fosse político no sentido clássico, exercia influência pela palavra, pela escuta e pelo gesto. E Chico Xavier, com seus atos silenciosos, praticava uma política da compaixão. Política não é só instituições: é cuidado, é decisão com impacto na vida dos outros. É, em última instância, uma forma de curar. Se para esses pensadores e guias a política estava na arte de realizar o bem comum, hoje serve mais ao instinto de autopreservação de líderes medíocres em detrimento das virtudes dos sábios e de homens ponderados. A estratégia dominante é sempre a estratégia do embate, da loucura, da instabilidade permanente, da insegurança e do imprevisível.

Curar, no sentido de resolver problemas, é tema considerado infantil, inocente e irrelevante. Para uma política que cure a desigualdade que separa irmãos da mesma rua, o descaso que adoece escolas e postos de saúde, a desesperança que se instala quando a juventude olha para o futuro e nada vê, é preciso restabelecer a confiança nas pessoas e nas instituições.

Para que a política cure, ela precisa reencontrar seu propósito. E isso exige que líderes políticos, religiosos, empresariais e comunitários imponham esse sentido ao debate público — com altivez e serenidade. É preciso reeducar a política e convidar o eleitor à decisão consciente. Não basta gritar em rede social, nem se travestir de salvador da pátria em campanhas eleitorais. O político que deseja ser instrumento de transformação precisa pisar no chão da cidade, ouvir sem arrogância, reconhecer que não tem todas as respostas. A boa política começa na humildade de perguntar: "como posso ajudar?".

Há uma dezena de pautas sérias, relegadas no debate público, adormecidas por discussões superficiais e que não nos levam a lugar nenhum. O excesso de polêmicas tem nos distraído do que realmente importa e permitindo que “falsos profetas” ocupem espaços sagrados na condução da sociedade. É na construção coletiva de uma solução, que mora a política que cura. A política que não aparece na manchete, mas que muda a vida de alguém.

Nietzsche já nos advertia sobre a doença da decadência, quando o ressentido ocupa o lugar do criador, governando não pela excelência, mas pela inveja, usando retórica de vitória, de defesa do povo, disfarçando sua ineficiência com falácias e inimigos imaginários. Foi este o processo que levou a Alemanha a um dos regimes mais obscuros da nossa história. Não nos equivoquemos, as sementes deste regime continuam plantadas e florescendo.

Não é fácil. O sistema é duro, a burocracia é lenta, as pressões são reais. Mas é possível. Desde que nos lembremos de que a cadeira que ocupamos não é trono, é tarefa. Que o microfone não é para exibição, é para comunicação. Que o mandato é um contrato com o povo — e com a nossa consciência. O país está ferido. As cidades estão cansadas. As pessoas estão exaustas. Talvez o que mais nos falte hoje não seja uma nova ideologia, mas uma política que cure. Que devolva dignidade onde há humilhação, que proteja onde há desamparo, que escute onde há grito.

Que nós sejamos instrumentos dessa cura.

Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.

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