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Quando o Homem Torna o Próprio Ego, Deus - A Epidemia de Isolamento no Século XXI

Leia a coluna desta semana de Dylan Pretto
Quando o Homem Torna o Próprio Ego, Deus. Foto: Reprodução da Internet
domingo, 3 agosto, 2025

por Dylan Pretto

Vivemos uma época que canonizou o amor próprio. Repetido como mantra em redes sociais, livros de autoajuda e slogans publicitários, esse conceito se transformou no bem supremo do século XXI. Uma nova moralidade, aparentemente indiscutível. A ideia é simples e sedutora: “foque em você, não aceite menos do que você merece, seja sua prioridade”. Mas, por trás dessa estética empoderadora, cresce um mal-estar difuso, solitário, silenciosamente implosivo.

O que parecia libertador tornou-se prisão. Quando o “eu” se torna o centro de gravidade do mundo, tudo o que é relacional (o amor sacrificial, o compromisso duradouro, a abertura à vida) passa a parecer opressor. O outro vira ameaça à autonomia. O sacrifício é confundido com fraqueza, auto-inferiorização. A dependência emocional, que em outras eras poderia ser entendida como expressão da profundidade amorosa, hoje é rotulada como patologia.

Os efeitos dessa mentalidade são mensuráveis. As taxas de natalidade caem ano após ano, com muitos jovens adultos confessando que não querem filhos para não abrir mão de sua liberdade. Os divórcios aumentam, mesmo entre casais recém-casados, muitas vezes motivados pela recusa em lidar com as frustrações próprias da convivência. A lógica é simples: se algo me fere, me incomoda ou exige de mim mais do que estou disposto a dar, então “não é para mim”.

Esse espírito da época tem sido especialmente cruel com a fração masculina da população. Pressionados por modelos ultrapassados de virilidade, por uma sociedade embevecida por um liberalismo inebriante, por uma reforma misândrica e privados de espaços de vulnerabilidade, muitos sucumbem ao isolamento emocional. Os dados de saúde pública são estarrecedores: os homens continuam morrendo por suicídio em número muito maior do que as mulheres. E morrem, em parte, porque aprenderam que depender, amar demais, se doar é sinônimo de fraqueza. Vivem como se não pudessem pedir colo ou socorro.

Curiosamente, essa epidemia do amor próprio não cura o que promete curar. A autoestima forjada na negação do outro é frágil como cristal. Exige aplauso constante, reconhecimento imediato, gratificações sucessivas. Uma autoestima performática, nascida não do enraizamento, mas da comparação.

E então, ironicamente, em nome de preservar o próprio bem-estar, perdemos a alegria de viver com e para o outro.

Dylan Pretto é formado em Direito, artista plástico, crítico de arte e escritor

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