Por Dylan Pretto
Dando continuidade ao tema da semana passada, a tradição espiritual (e até mesmo a psicanálise mais séria) nos lembra que o eu só se realiza quando se entrega. Que o amor mais verdadeiro começa quando o ego diminui. Não se trata de negar o valor de si mesmo, mas de recordar que o sentido da vida não se encerra no espelho. O homem não foi feito para a auto adoração, mas para a comunhão.
Um dos maiores equívocos de nossa época é acreditar que o amor verdadeiro se sustenta apenas na leveza, no respeito constante e na reciprocidade plena. Isso não é amor, é utopia higienizada. O amor erótico, como bem mostrou o filósofo inglês Roger Scruton, é, por definição, uma experiência de dependência intencional, ou seja, uma entrega que envolve riscos, imperfeições e a aceitação do outro como ele é, não como eu gostaria que fosse.
Não há casais que durem décadas sem episódios de desrespeito, negligência, frieza ou dor. Amar alguém por vinte, trinta, cinquenta anos não é conviver com constantes highlights, mas suportar o outro, e deixar-se suportar, através de suas falhas. Há dias em que se é injusto, ingrato, exausto e ultrajante. Há anos em que se precisa perdoar o imperdoável, recomeçar do meio, ou seguir em silêncio até os bons ventos romperem novamente.
A crença contemporânea de que atos de negligência sejam sinais de que “não era para ser” reside comicamente em uma preguiçosa zona de conforto. Ela nasce da ilusão de que o amor deve vir pronto, encomendado, feito sob medida, polido, sem atrito. Como se as almas se encaixassem como peças de Lego. Não. Amor é carne, é tempo, é renúncia, é escavação. Ele precisa do incômodo, do indigesto, do estranhamento, da convivência longa que revela o verdadeiro interior do outro e a miséria de si mesmo.
Depender do outro, nesse sentido, não é fraqueza, é o coração do amor. Quem não quer depender, também não quer amar. O que quer é consumir afetos, colecionar experiências e manter o controle. Mas o amor real é justamente o colapso, a disrupção total do controle. É quando o outro ganha o poder de me ferir, e eu o de curá-lo, e ainda assim, permanecemos.
É hora de repensar o que estamos chamando de saúde mental. Talvez o equilíbrio emocional que tanto buscamos não esteja em nos blindarmos do mundo, mas em aprendermos a viver feridos, ligados, frágeis, e ainda assim abertos ao amor. Talvez o verdadeiro “amor próprio” seja, paradoxalmente, aquele que nos permite amar os outros, mesmo quando isso aparenta custar a nossa própria paz.
Talvez seja preciso reaprender a depender. Se não aprendermos isso, viveremos eternamente frustrados. Ou sós. Talvez os dois.
Sobre o autor
Dylan Pretto é formado em Direito, artista plástico, crítico de arte e escritor