Acredito que poucos saibam que o embrião desta cidade tenha sido um decreto real, dos primeiros nas Minas Gerais, autorizativo a criação de povoado. Isto em 1600 e qualquer coisa.
Imagino, também, ser bastante desconhecida a história de seus habitantes originários, os temíveis e de pouca conversa, índios botocudos.
Papo sobre esta turma, nossa gloriosa polícia militar nem gosta de muitas lembranças. A ordem superior era abrir passagem que eles bloqueavam, no tacape. Eram bravos demais… até que surgiram as volantes policiais, tal aquelas que anos depois haveriam de servir como exemplo na caçada ao famoso Lampião. Pela terceira ou quarta vez veio de lá um tal de tenente, brabo como um caninana, e índios já eram. As daqui, só não ensinaram aos baianos, esse negócio de cortarem cabeças a exposições e troféus.
Após tais eventos, tempos passados, era um tal de roubar cavalos que ninguém aguentava mais. Calorão e a pé ficava difícil.
Apelaram às volantes outra vez que, da capital vieram como policiais para cuida patrimonial, condutores à justiça e porque não executores das sentenças exaradas por eles próprios. Pois não era que, trabalho demais, distância longa até tribunais e tudo muito caro, não chegava nenhum vivo as Cortes. Diziam ser cansaço, malária, doenças outras, queda de cavalo, mas a verdade é que balas tomaram estes nominhos todos. E assim, como os índios, montadores em cavalos alheios se acabaram.
A PM mineira, segundo dizia meu pai, velho Coronel da força revolucionária, não gostava muito desses assuntos, portanto…
Estrada de ferro Vitória Minas, 1916, marcando época em mesmo ano de nossa Catedral. Vem de lá Percival Facquar, proprietário da mesma, que haveria de contrariar notáveis políticos mineiros que queriam trilhos ligados a Serro e Diamantina. Legítimo falcão norte-americano, “mais brasileiro que muitos”, dono da Itabira Iron e de uma montanha de ferro chamada Cauê, lascou uma resposta politicamente incorreta: “não irei levar trilhos nem trens a lugares sem merda nenhuma”. Daí a frente só apanhou da politicagem.
Dizer que essa ferrovia nenhum desenvolvimento trouxe esbarra no absurdo. Trouxe, mas por outro lado. Com o advento da segunda guerra, para cá vieram trabalhadores e engenheiros da empresa norte-americana Morrison Knudsen para reformá-la e junto com eles todo um espetacular sistema de saúde pública.
Somados aos concursos de minerais estratégicos à ocasião, como mica (malacacheta) e cristais de rocha, nos tornamos logo após município, em 38, o maior colaborador aos esforços de guerra aos aliados.
Recebemos muita coisa boa, que se não trouxeram desenvolvimento, nos veio progresso em qualidade de vida. O SAAE, que agora venderam, inovador do uso do flúor e considerado o melhor tratamento da América Latina. O SESP então, Serviço Especial de Saúde Publica que coisa magnífica. Tratava de tudo que tínhamos e prevenia o que ainda não tínhamos. Exorcizou febres amarelas, malárias, impaludismos, verminoses, chegando a cáries dentárias. Um progressão, mas o desenvolvimento:
Só mesmo com os submarinos alemães ameaçando regularmente nossa navegação costeira com seus torpedos, veio a urgência de construção de via interna de transportes sul- nordeste e interiores. Em1942, uma estrada chamada Rio-Bahia a toque de caixa. Aí sim, essa ex Figueira do Rio Doce, que buscando agradar o Governador Mineiro e sua polícia boa de briga, o ditador Getúlio Vargas trocara seu nome para Governador Valadares, praticamente explodiu, ultrapassando a tudo e todas suas vizinhanças.
Com a rodovia, alavancou-se o setor madeireiro, que antes só usava como lenhas para fogões caseiros e combustíveis das Marias Fumaças, uma epopeia possível, porque meio ambiente era apenas o ar que respirávamos. Por isso do período carvoeiro, o que se ouviam eram os zumbidos dos machados, para abertura de fazendas. Mais nada vou dizer, ecologistas de sonhadores haverão de chorar ao ler, empalecendo a festa da aniversariante.
Por aqui já em meus tempos, atravessamos situações inusitadas culturalmente. Tivemos também como herança dos gringos a melhor zona boêmia do interior brasileiro. E tinha que ter, pois amores poderiam acontecer, mas sem transas. Dava polícia e casamento celebrado pelo delegado. Armas então, todo mundo. Se o batalhão entendesse de desarmar a turma na avenida, além de muitos praças, como diziam, tinha que trazer um caminhão para levá-las.
Nos folguedos éramos bacanas, ninguém, proporcionalmente, nos batia em carnavais, uma loucura total. Até que acabaram com o lança-perfume. Com ele foi-se a maior alegria.
Vieram épocas de siderurgias, três ou quatro, que ao findarem as matas fornecedoras do necessário carvão vegetal também minguaram.
Com a chegada do capim africano, colonião e do famoso gado zebu, principalmente o hindu-brasil, nos transformamos em bons fornecedores da boa carne aos grande centros consumidores. Tempo que durou até e chegada do nelore e dos tiradores de leite com seus mestiços. Chegamos mesmo a nos tornar uma das maiores bacias leiteiras, batendo inúmeras regiões.
Em resposta a todas as ligações mantidas com o povo do norte (estadunidenses) logo após o desfecho guerreiro mundial, a turma daqui não esperou nada, principalmente o mundo das pedras semipreciosas, que imediatamente começou um vai e vem de lá para cá, e muitos sem voltar, lá ficando. Há muito, nos trazem e mais mandam milhares de dólares, que valorizam bens, de imóveis rurais a urbanos. E tenho para mim que esse loiro americano que deu conta da Venezuela, de nós não haverá de dar. Assim espero.
A área de serviços e educação, só há que existir respeito e aplausos, principalmente a grande filhota da cidade, a Univale. Quanto as outras por envolvimento e sentimento familiar a uma delas, lamento o desfecho. Paciência, que fazer?
Isso tudo foi e é Governador Valadares, município centralizador em tudo, à 50 outros, proporcionalmente ostentando uma das maiores florestas urbanas do país, embora alguns insistam em cortá-las. Eles haverão de passar e elas permanecerão. São meu ORGULHO… 30 de janeiro de 2026, 88 anos e embora eu me indo lá e acolá, deles aqui, estou há 84.
José Altino Machado. Do autor: pais: Altino Machado
e Aurea F. Machado, 11 irmãos, 8 filhos, 14 netos, 5 bisnetos.





