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domingo, 28 dezembro, 2025

Dia dos Santos Inocentes: Um Chamado Contra Toda Forma de Sacrifício da Inocência

Leia a coluna desta semana de Tohru Valadares
Dia dos Santos Inocentes. Foto: Reprodução da Internet

por Tohru Valadares

Caríssimo ledor(a), no dia 28 de dezembro, a tradição cristã recorda o Dia dos Santos Inocentes, data que remonta ao episódio narrado no Evangelho de Mateus (2:16–18), quando o rei Herodes, tomado pelo medo de perder seu poder, ordenou o massacre de todas as crianças do sexo masculino com até dois anos na região de Belém.

O episódio, um dos acontecimentos mais duros das Escrituras, revela como a insegurança humana, quando aliada ao orgulho e ao autoritarismo, pode gerar atos de crueldade e injustiça que recaem justamente sobre aqueles que não têm qualquer possibilidade de defesa e ficam à mercê do acaso quando, os justos nada fazem para mudar aquela realidade desleal e covarde.

Essa lembrança, mais do que uma data litúrgica, oferece ao mundo atual um espelho que revela atitudes semelhantes à de Herodes nem sempre com violência física, mas muitas vezes com decisões, comportamentos e palavras que também sacrificam pessoas inocentes.

Em diferentes ambientes sociais, profissionais, familiares e até religiosos, surgem situações em que a imposição de valores pessoais, gostos individuais e vontades particulares acaba sufocando aqueles que não possuem força, voz ou autonomia para resistir. Em muitos casos, pessoas em posições de autoridade ou influência seja por status, função, conhecimento ou prestígio acabam exercendo poder de maneira distorcida, ferindo os frágeis sem sequer perceber.

Quando isso acontece, repetimos em pequena escala o gesto de Herodes: sacrificamos inocentes para manter nossas ideias, nossos conceitos, nosso controle. E, como alerta Jesus em Mateus 25:40, “tudo o que fizestes a um destes meus pequeninos, a mim o fizestes.” Ferir um inocente, portanto, é tocar o próprio Cristo.

A reflexão proposta por esta data se estende também para a postura de quem testemunha injustiças e permanece calado. Omissão também é forma de violência. Ao presenciar alguém sendo injustiçado e nada fazer, colaboramos, mesmo que silenciosamente, para a continuidade do mal. A história mostra que a maldade cresce quando os bons se calam, e o Evangelho reforça que o cristão é chamado não apenas a evitar o mal, mas a impedir que o mal prevaleça.

Jesus, em seu ministério, deu repetidas demonstrações de defesa dos fracos e vulneráveis. Ele acolheu as crianças dizendo: “Deixai vir a mim os pequeninos” (Mateus 19:14); defendeu a mulher prestes a ser apedrejada (João 8:1–11); tocou no leproso excluído da sociedade (Marcos 1:40–45). Cristo não foi indiferente à dor humana, não tolerou injustiças, não se escondeu atrás do silêncio. Pelo contrário, agiu, interveio, protegeu e ensinou pelo exemplo.

Dia dos santos inocentes: um chamado contra toda forma de sacrifício da inocência

Por isso, o Dia dos Santos Inocentes se torna também um convite para que cada cristão reflita sobre a maneira como tem conduzido suas ações e sua responsabilidade diante do sofrimento alheio. Deus não deseja nenhum tipo de mal, injustiça ou covardia contra seus filhos.

Tenha certeza que Deus não se alegra com ofensas, perseguições, pressões psicológicas ou abusos de autoridade. O cristianismo verdadeiro exige atitude, coragem e discernimento para proteger a dignidade humana e impedir que o inocente pague o preço da vaidade, da ira ou da insegurança de alguém.

Assim, esta data nos coloca diante de uma pergunta necessária: quantas vezes sacrificamos inocentes percebendo ou sem perceber? Quantas vezes impusemos nossos sonhos, medos, opiniões ou frustrações em pessoas que não tinham como se defender? Quantas vezes nossa palavra mais dura, nosso olhar de desprezo ou nossa decisão autoritária feriu quem estava vulnerável? E, principalmente, quantas vezes vimos alguém sofrer injustamente e escolhemos o conforto do silêncio?

O dia 28 de dezembro, portanto, não se limita ao passado. Ele aponta para o presente e exige de todos nós uma postura consciente para o futuro. É preciso ser luz, agir contra a maldade, resistir ao comodismo e não permitir que a injustiça encontre espaço onde há fé. O cristão é chamado a ser instrumento de proteção, paz e justiça, e não participante ativo ou omisso de qualquer forma de sacrifício humano.

Diante dessa memória, fica também uma última reflexão, simples, direta e profundamente espiritual: o que você fez ontem? Ontem como hoje e amanhã você teve oportunidades de defender, acolher, proteger e iluminar. Cada gesto é observado por Deus e ecoa na vida do próximo.

Provérbios 21:27: "O sacrifício dos ímpios já é abominação; quanto mais, oferecendo-o com má intenção!" (“Quando se protege o injusto, o mentiroso, o agressor ou o opressor, inevitavelmente se coloca em risco a vida, a dignidade e a segurança dos justos.”).

Que a lembrança dos Santos Inocentes inspire em nós a responsabilidade de nunca permitir que o mal prevaleça e que jamais repitamos, em nossa rotina, pequenas versões da violência de Herodes. Que sejamos, hoje e sempre, cristãos ou não, seres humanos de ação, e não de omissão. Paz&Bem.

TOHRU VALADARES bacharel em Teologia, Filosofia, Licenciado em Ciências da Religião, Psicólogo, Pós-graduado em conselhamento Cristão e Capelania, mediação de conflitos, filosofia Religiosa e ecopedagogia.

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