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terça-feira, 16 junho, 2026

Eleições 2026: O Imposto do Muro

Toda campanha morna paga uma tarifa invisível e a leitura errada de uma pesquisa está prestes a produzir uma nova safra de pagadores nas eleições de 2026.
Imagem ilustrativa produzida por IA
Imagem ilustrativa produzida por IA

POR MICHEL LENZ

Em toda campanha existe uma reunião que se repete. Alguém abre a pesquisa de rejeição, aponta os números dos polos e diz, com voz de prudência: "não vamos comprar essa briga". A frase soa sensata. Foi dita em 2018 nas salas da maior coligação daquela eleição. Foi dita em 2022 nos comitês da "terceira via". E está sendo dita agora, em 2026, com um argumento novo sobre a mesa: os 32% de eleitores que se declaram independentes na Genial/Quaest de maio. Essa frase sensata já enterrou mais candidaturas do que qualquer escândalo. Ela é o momento exato em que a campanha pode começar a pagar o imposto do muro.

O “Imposto do Muro” é o preço que o eleitorado cobra de quem não tem posição ou troca de posição por cálculo e pura conveniência. Ele não aparece em planilha nenhuma, não tem boleto, não dá aviso prévio, ele é cobrado em parcela única, na urna.

A pesquisa certa, a conclusão errada

O número que está financiando a nova safra de muros é real, mas precisa ser lido em duas partes. A primeira: o eleitor transferível entre os polos acabou. Quem está de um lado dificilmente atravessa para o outro, e a campanha que gastar energia tentando converter adversários vai queimar dinheiro em concreto armado. A segunda: um terço do eleitorado se declara independente, sem alinhamento com polo nenhum. É desse terço que a eleição de 2026 vai sair, e é sobre ele que parte do mercado tirou a conclusão errada: "há um terço esperando um moderado, então suavize tudo, não tome partido, não se indisponha". Em resumo, faça uma campanha morna.

O erro nasce de uma confusão de categorias. "Independente" descreve a relação do eleitor com a briga, não o lugar dele no espectro. Quando responde à pesquisa, ele está dizendo "não sou de nenhuma torcida", e o estrategista escuta "estou no meio do caminho entre as duas". São informações diferentes. Esse eleitor raramente é alguém sem opinião: na maioria das vezes tem valores e um lado para o qual pende, só não aguenta mais o barulho. Ele não quer o meio do caminho. Quer descer do ringue.

E a biografia dele explica a exigência. É o eleitor que votou com raiva em 2018 e 2022, quase sempre contra alguém, escolhendo um nome para derrotar o outro. Saiu das duas eleições exausto e com a régua trocada: a rejeição ao adversário deixou de bastar como argumento, e o que ele cobra agora é entrega. Por isso a mornidão não o conquista. O que falta a ele não é um candidato sem posição. É um candidato em quem confiar, e ninguém confia em quem não se sabe onde está.

Mesmo o tamanho do terço merece desconto, e o desconto reforça o ponto. Wilson Gomes, da UFBA, estima que dos 32% declarados, talvez só 10% a 15% virem voto disputável de fato. Numa eleição empatada, dez pontos são a eleição inteira, e fração pequena se conquista com precisão, não com diluição. Quem dilui para agradar a todos vira a segunda opção de todos e a primeira de quase ninguém.

O placar do muro

Quem acha que isso é opinião pode conferir o placar. O Brasil testou o centro morno em condições de laboratório, com toda a estrutura que dinheiro, coligação e televisão podem comprar:

EleiçãoA apostaA estruturaO resultado
2018Geraldo AlckminColigação de 9 partidos com o Centrão; metade de todo o horário eleitoral (5min32s por bloco, 434 inserções)4,8% - 4º lugar
2018Henrique MeirellesPartido do presidente em exercício; quase 2 minutos de TV por bloco1,3%
2022"Terceira via" (Doria e Moro)Governador do maior estado do país; o ex-juiz mais famoso do BrasilDesistiram antes da urna
2022TebetPartidos histórico e com estrutura nacionalMeses  nos ~1%

Na mesma eleição de 2018, o candidato com 8 segundos de bloco venceu o primeiro turno com 46%. A leitura apressada atribui isso só à posição, e estaria errada. Ele tinha uma operação digital sem precedentes, surfou a onda antipolítica e ganhou semanas de mídia espontânea após o atentado. Só que cada um desses fatores depende do mesmo insumo. Engajamento digital se alimenta de definição: algoritmo não distribui mornidão, ninguém compartilha equidistância, a mesma máquina a serviço de um candidato morno não viraliza nada. E o voto antipolítico é, ele próprio, uma posição: "contra o sistema" talvez tenha sido o lado mais nítido daquela eleição.

O que os 8 segundos provam não é que posição vence sozinha, é que a estrutura tradicional (coligação e televisão) deixou de compensar a falta dela: 5 minutos e meio sem posição não compraram nem 5% do eleitorado.

E a nota de rodapé mais importante do placar é a exceção. Simone Tebet passou a campanha inteira rondando 1% e só cresceu na reta final, exatamente quando abandonou a equidistância e começou a cravar posição nos debates. O placar não diz que o centro perde. Diz que o morno perde.

Por que o imposto existe

O problema de não se posicionar não é parecer indeciso, é parecer calculista. Quando o candidato não tem posicionamento definido e parece sempre querer agradar a todos, o eleitor não pensa "que pessoa equilibrada". Ele pensa "esse aí está esperando para ver quem ganha antes de se comprometer". E cálculo é o que esse eleitor aprendeu a desprezar: ele se fartou da esperteza disfarçada de prudência e do silêncio estratégico quando se esperava uma palavra. O muro não soa como neutralidade, soa como oportunismo calculado.

Quando tudo parece areia movediça: economia incerta, instituições em tensão, informação contaminada, o posicionamento vira chão firme. O eleitor médio procura alguém em quem se apoiar, e ninguém se apoia em quem não se sabe onde está.

O Brasil já assistiu a esse filme: em 2018, o candidato com o maior tempo de televisão e a maior coligação da disputa terminou o primeiro turno com menos de 5% dos votos. Não faltou estrutura, faltou um lugar reconhecível onde estar.

Firmeza, porém, não é fúria, nem fanatismo. O candidato que confunde convicção com agressão alimenta a guerra da qual o eleitor quer fugir e racha a própria base em vez de ampliá-la. O que esse eleitorado procura é a combinação rara: posição definida e cabeça “no lugar”.

O que o imposto não cobra

A alíquota não incide sobre moderação de tom. Incide sobre a ausência de posição, e confundir as duas é o erro que sustenta o muro. Centro é um lugar no espectro, o muro não é lugar nenhum. Um candidato de centro com convicção assumida não paga imposto algum, e um candidato de polo que calcula em vez de ter uma posição consolidada paga a alíquota cheia.

Pelo mesmo motivo, ajustar o tom não é virar a casaca. Virar a casaca é mudar o que se defende conforme a plateia. Ajustar o tom é defender a mesma coisa de um jeito que o ouvinte canse menos de ouvir, falar de geração de emprego para uns e de responsabilidade fiscal para outros sem dizer uma frase em que não acredite, porque ambas saem do mesmo conjunto de princípios. A convicção fica fixa, a porta de entrada varia. Quem está no muro nunca chega a esse refinamento, porque sequer definiu o que defender.

O teste do muro

Para quem está numa campanha agora, ou prestes a vender uma estratégia de "não comprar briga", três perguntas medem a alíquota que o candidato vai pagar:

1. Ele tem alguma posição que custa voto? Se todas as posições só somam, não há posição: há pesquisa recitada, ou seja, há discurso de conveniência. Posição de verdade desagrada alguém, e é justamente por isso que gera confiança em todos os demais.

2. Ele mantém a mesma posição quando muda a plateia ou quando a pergunta aperta? A ênfase pode variar; a substância, não. O muro costuma aparecer aí: na entrevista difícil, no auditório hostil, no tema que divide. Quem só tem posição quando ela não custa nada está apenas administrando conveniência.

3. Pergunte a um eleitor qualquer: “esse candidato defende o quê?” Se a resposta demora mais de três segundos, ou sai vaga, genérica, daquelas que serviriam para qualquer outro nome da disputa, o imposto já começou a ser cobrado.

Quem passa nas três pode ajustar tom, pauta e palco à vontade. Quem reprova precisa decidir o que defende antes de decidir como comunicar. Marketing não conserta o que o posicionamento não definiu, no máximo, vai disfarçar a indefinição.

Em 2026, depois de uma sequência de pesquisas apertadas, com os polos travados praticamente empatados, o imposto do muro estará na alíquota máxima da década. O espaço que existe não é para quem se equilibra entre os polos: é para quem crava posição sem necessariamente precisar de inimigo ou transformar cada divergência em guerra. Esse espaço vale a eleição, e a próxima reunião em que alguém disser "não vamos comprar essa briga", possivelmente, é o momento exato de abrir o placar.

E o imposto não é tributo exclusivo de eleição presidencial. A escala muda, a alíquota não: prefeito, deputado ou vereador, todos passam pelo mesmo teste das três perguntas, e na cidade pequena, onde o eleitor conhece o candidato pelo nome, o cálculo é percebido ainda mais de perto. Onde houver urna, há cobrança.

Michel Lenz: Apaixonado por estratégia, inovação, ideias e projetos, pelos tatames e a filosofia do jiu-jitsu, sua vida é a família (Papai de Alice). Estrategista de Marketing Político e Comunicação Governamental, Secretário de Gestão Estratégica e Inovação em Três de Maio-RS, Fundador e Ex-CEO da IntMark - Inteligência de Marketing, Cofundador da Alcateia Política, Sócio/CMO da #Ninjas! Contabilidade, Professor de Jiu-Jitsu na Union Team. Possui MBA em Marketing Político e Comunicação Governamental, MBA em Gestão de Marketing e Comunicação, Bacharel em Sistemas de Informação. Atua com marketing político desde 2016 com campanhas eleitorais e mandato, como estrategista de campanha, estrategista de marketing e comunicação e coordenador de equipe, além de realizar diagnósticos de presença digital.

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