Logo Jornal da Cidade - Governador Valadares
Banner
domingo, 4 janeiro, 2026

Estudem! Continuem apostando no Estudo!

Leia a coluna desta semana de Jamir Calili
Rotina de Estudos. Foto: Reprodução da Internet

por Jamir Calili

Quanto eu era mais jovem e estava estudando no ensino médio, a maioria das pessoas de minha geração acreditava piamente que o acesso ao ensino superior traria melhor qualidade de vida. Era o sonho de todos os pais, mesmo os que não tinham ensino formal. A expansão do ensino superior, público e privado, no início do milênio, trouxe a possibilidade para milhares de pessoas acessarem o tão sonhado diploma. Com a expansão de pessoas com formação superior, embora ainda a um nível inferior aos países desenvolvidos, veio igualmente a frustração. O canudo não garantiu acesso a melhores salários universalmente.

Concomitante a isso, a expansão das redes sociais e a crise de 2008 trouxeram a possibilidade de ganho para os influencers e alguns casos de sucesso de pessoas que não haviam se aventurado a cursar uma faculdade. Cursar o ensino superior começou a deixar de ser o sonho dos estudantes de ensino médio e as famílias começaram a reorientar seus sonhos. Porém, escrevo hoje para alertar as famílias e convidá-las a ressignificar o estudo, tanto formal quanto o estudo em si, caracterizado por sentar a bunda na cadeira e ler, grifar, discutir, dissertar. Tenho dito a amigos e conhecidos que, apesar das possibilidades que o mundo virtual tem nos oferecido, ainda é o estudo a forma mais segura de fortalecer a nossa capacidade de liderar, trabalhar e, para todos os casos, ganhar dinheiro. Não dá para se espelhar em casos singulares de pessoas que se deram bem a despeito do investimento em estudo. Primeiro porque, como dito, são casos singulares, tal como o do jogador de futebol que fica milionário, enquanto milhares não chegam lá. Segundo porque, ainda é cedo para atribuir resiliência a esses sucessos repentinos.

Nos últimos anos, um termo que tem ganhado destaque nas discussões sobre a saúde mental e educação é o “brain rot”, em tradução simples, cérebro quebrado, eleita a palavra do ano pelo dicionário Oxford em 2024. Embora pareça uma expressão coloquial, refere-se a um conjunto de fenótipos associados ao desgaste cognitivo e à diminuição da capacidade de concentração, atribuídos na maioria à sobrecarga de informações e ao uso excessivo de dispositivos digitais. Esse fenômeno se tornou especialmente pertinente no contexto moderno, onde a atenção das pessoas está sendo constantemente disputada por várias fontes de estímulo, como redes sociais, vídeos curtos e informações em tempo real.

O contexto do “brain rot” está ligado ao aumento do consumo de conteúdo digital e à diminuição do tempo gasto em atividades que envolvem foco e reflexão mais profundas, como a leitura e o estudo formal. À medida que as plataformas digitais proliferam, muitos indivíduos se encontram perdendo a capacidade de se concentrar por longos períodos, resultando em pensamentos dispersos, superficialidade na aprendizagem e uma dificuldade em reter informações significativas. Esse cenário pode ser preocupante, pois a educação formal e a leitura são essenciais para o sucesso profissional e pessoal.

Foi neste contexto de esvaziamento da capacidade cognitiva trazida pelas redes sociais que o famoso e celebre dicionário de Oxford colocou esta palavra em destaque. Isto simboliza não apenas um estado mental, mas também um aviso sobre os perigos do consumo passivo de informações e da falta de envolvimento em atividades intelectualmente estimulantes. Em um mundo que valoriza cada vez mais a rapidez e a instantaneidade, termos como esse nos lembram da importância de cultivar habilidades cognitivas robustas, fundamentais em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.

Por isso, quero retornar o alerta aqui. Estudem, voltem a colocar o estudo, especialmente o formal, como um elemento a ser valorizado pelas famílias, igrejas, empresas e instituições públicas e privadas. Pais e mães, apostem, tal como pais e mães apostavam no passado, na importância do estudo, do ritual de passagem do ensino médio para o ensino superior. Voltem a valorizar aquele que lê, aquele que sabe escrever, aquele que fala bem e coloquem mensagens superficiais e rápidas no local que lhes é de direito e dever, ou seja, como mensagens menos importantes.

Nós mesmos estamos nos deixando levar por mensagens superficiais. Em troca do conteúdo valoroso dos livros, estamos optando pelo vício nas manchetes sensacionalistas. E aqui não estou só defendendo o conhecimento acadêmico. A leitura de literatura, biografias e até mesmo obras ficcionais enriquece o entendimento humano, amplia a empatia e a capacidade de se relacionar com diferentes contextos e culturas. Em um mercado de trabalho em que habilidades interpessoais e adaptabilidade são cada vez mais valorizadas, a leitura se torna um ativo fundamental.

O investimento em educação e em literatura não é apenas um caminho para o sucesso, mas uma estratégia eficaz para garantir uma vida mais rica e satisfatória, tanto no aspecto pessoal quanto no profissional.

Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.

Gostou? Compartilhe...

Leia as materias relacionadas

magnifiercrossmenu