por Jamir Calili
Quanto eu era mais jovem e estava estudando no ensino médio, a maioria das pessoas de minha geração acreditava piamente que o acesso ao ensino superior traria melhor qualidade de vida. Era o sonho de todos os pais, mesmo os que não tinham ensino formal. A expansão do ensino superior, público e privado, no início do milênio, trouxe a possibilidade para milhares de pessoas acessarem o tão sonhado diploma. Com a expansão de pessoas com formação superior, embora ainda a um nível inferior aos países desenvolvidos, veio igualmente a frustração. O canudo não garantiu acesso a melhores salários universalmente.
Concomitante a isso, a expansão das redes sociais e a crise de 2008 trouxeram a possibilidade de ganho para os influencers e alguns casos de sucesso de pessoas que não haviam se aventurado a cursar uma faculdade. Cursar o ensino superior começou a deixar de ser o sonho dos estudantes de ensino médio e as famílias começaram a reorientar seus sonhos. Porém, escrevo hoje para alertar as famílias e convidá-las a ressignificar o estudo, tanto formal quanto o estudo em si, caracterizado por sentar a bunda na cadeira e ler, grifar, discutir, dissertar. Tenho dito a amigos e conhecidos que, apesar das possibilidades que o mundo virtual tem nos oferecido, ainda é o estudo a forma mais segura de fortalecer a nossa capacidade de liderar, trabalhar e, para todos os casos, ganhar dinheiro. Não dá para se espelhar em casos singulares de pessoas que se deram bem a despeito do investimento em estudo. Primeiro porque, como dito, são casos singulares, tal como o do jogador de futebol que fica milionário, enquanto milhares não chegam lá. Segundo porque, ainda é cedo para atribuir resiliência a esses sucessos repentinos.
Nos últimos anos, um termo que tem ganhado destaque nas discussões sobre a saúde mental e educação é o “brain rot”, em tradução simples, cérebro quebrado, eleita a palavra do ano pelo dicionário Oxford em 2024. Embora pareça uma expressão coloquial, refere-se a um conjunto de fenótipos associados ao desgaste cognitivo e à diminuição da capacidade de concentração, atribuídos na maioria à sobrecarga de informações e ao uso excessivo de dispositivos digitais. Esse fenômeno se tornou especialmente pertinente no contexto moderno, onde a atenção das pessoas está sendo constantemente disputada por várias fontes de estímulo, como redes sociais, vídeos curtos e informações em tempo real.
O contexto do “brain rot” está ligado ao aumento do consumo de conteúdo digital e à diminuição do tempo gasto em atividades que envolvem foco e reflexão mais profundas, como a leitura e o estudo formal. À medida que as plataformas digitais proliferam, muitos indivíduos se encontram perdendo a capacidade de se concentrar por longos períodos, resultando em pensamentos dispersos, superficialidade na aprendizagem e uma dificuldade em reter informações significativas. Esse cenário pode ser preocupante, pois a educação formal e a leitura são essenciais para o sucesso profissional e pessoal.
Foi neste contexto de esvaziamento da capacidade cognitiva trazida pelas redes sociais que o famoso e celebre dicionário de Oxford colocou esta palavra em destaque. Isto simboliza não apenas um estado mental, mas também um aviso sobre os perigos do consumo passivo de informações e da falta de envolvimento em atividades intelectualmente estimulantes. Em um mundo que valoriza cada vez mais a rapidez e a instantaneidade, termos como esse nos lembram da importância de cultivar habilidades cognitivas robustas, fundamentais em um mercado de trabalho cada vez mais competitivo.
Por isso, quero retornar o alerta aqui. Estudem, voltem a colocar o estudo, especialmente o formal, como um elemento a ser valorizado pelas famílias, igrejas, empresas e instituições públicas e privadas. Pais e mães, apostem, tal como pais e mães apostavam no passado, na importância do estudo, do ritual de passagem do ensino médio para o ensino superior. Voltem a valorizar aquele que lê, aquele que sabe escrever, aquele que fala bem e coloquem mensagens superficiais e rápidas no local que lhes é de direito e dever, ou seja, como mensagens menos importantes.
Nós mesmos estamos nos deixando levar por mensagens superficiais. Em troca do conteúdo valoroso dos livros, estamos optando pelo vício nas manchetes sensacionalistas. E aqui não estou só defendendo o conhecimento acadêmico. A leitura de literatura, biografias e até mesmo obras ficcionais enriquece o entendimento humano, amplia a empatia e a capacidade de se relacionar com diferentes contextos e culturas. Em um mercado de trabalho em que habilidades interpessoais e adaptabilidade são cada vez mais valorizadas, a leitura se torna um ativo fundamental.
O investimento em educação e em literatura não é apenas um caminho para o sucesso, mas uma estratégia eficaz para garantir uma vida mais rica e satisfatória, tanto no aspecto pessoal quanto no profissional.
Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.





