Festival de Tiradentes: a revolução originária da cozinha mineira
Por Leônidas Oliveira*
Na sexta-feira, 14 de agosto, o Festim Travessias de Minas, do Senac Minas, antecipou o espírito do Festival Cultura e Gastronomia de Tiradentes. Ao ver a cozinha mineira apresentada por seus territórios — Cerrado, Serra, Ribeirinha e Gerais —, senti a dimensão de uma transformação que levou décadas para amadurecer. Cada território devolvia ao alimento o chão, a água, o clima, o trabalho e as comunidades que o fizeram existir.
De 21 a 30 de agosto, Tiradentes recebe a 29ª edição do Festival, sob o tema “Minas Lusitânia — um elo entre culturas”. Quase três décadas permitem enxergar uma história maior: a passagem da cozinha mineira de herança cotidiana a consciência cultural, patrimônio, economia e linguagem contemporânea.
Essa história começou antes. Em 1987, o Xapuri fez do quintal mineiro um destino. Em 1990, Dona Lucinha transformou memória e pesquisa em restaurante; dois anos depois, levou essa linguagem a São Paulo. Em 1998, Tiradentes reuniu uma consciência que já se formava e deu-lhe praça, encontro e projeção nacional.
A comida que durante séculos habitou casas, quintais, roças, mercados e festas passou também a se reconhecer como cultura. Minas avançou à maneira mineira: aprofundando-se.
Foi uma revolução originária.
Cidades e povoados reabriram cadernos de receitas, reencontraram ingredientes e valorizaram produtores. Cada região revelou sua impressão digital culinária. Para ser original, descobrimos que era preciso voltar às origens — não para permanecer nelas, mas para partir delas.
Por isso não existe uma cozinha mineira única. Existem cozinhas mineiras: indígenas, africanas e europeias; do quintal, da roça, do rio, da serra, do cerrado e do sertão. O tema desta edição ilumina a matriz portuguesa sem apagar as demais. Nossa síntese não eliminou diferenças: fez delas uma linguagem.
Essa consciência chegou à cozinha contemporânea. Birosca, Trintaeum, Pacato e outras casas mostram que sofisticação não exige desenraizamento. Quanto mais preciso o território, maior a possibilidade de criar uma linguagem capaz de alcançar o mundo.
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Ao redor dessas mesas formou-se um ecossistema. Queijos, cafés, cachaças, vinhos, azeites, doces e quitandas tornaram-se razões de viagem. Segundo a Abrasel-MG, o setor reúne cerca de 160 mil empresas, mais de 501 mil empregos diretos e movimenta R$ 47,3 bilhões por ano.
Nos últimos anos, os reconhecimentos registraram a maturidade desse percurso. Em 2024, os modos tradicionais de fazer o Queijo Minas Artesanal foram inscritos pela Unesco como Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade. Em 2026, a Condé Nast Traveller colocou Minas Gerais entre os melhores lugares do mundo para comer. No mesmo ano, nove restaurantes mineiros entraram na lista dos cem melhores do Brasil da Casual EXAME.
Vistos juntos, esses reconhecimentos contam uma história: o sabor tornou-se reputação; o modo de fazer, patrimônio; o território, destino; e a tradição passou a alimentar uma cozinha reconhecida dentro e fora do país.
Essa conquista nasceu de décadas de trabalho: cozinheiras e cozinheiros, agricultores, queijeiros, produtores, pesquisadores, restaurantes, festivais e famílias que mantiveram saberes vivos antes mesmo de lhes darmos o nome de patrimônio.
É aí que se revela a importância histórica do Festival de Tiradentes. Ele não inventou sozinho essa transformação. Fez algo igualmente decisivo: reuniu o que estava disperso. Aproximou tradição e criação, produtor e cozinheiro, memória e futuro. Durante quase três décadas, ofereceu uma praça para Minas se reconhecer à mesa.
Por isso é tão significativa a presença do Senac nessa trajetória. Tradição não é repetição. Vive quando é transmitida, pesquisada e recriada. Formação também é preservação.
O Festim que antecedeu esta edição apresentou Minas por seus territórios, aromas e saberes. Agora, Tiradentes volta a ser a grande praça dessa conversa.
Durante muito tempo imaginamos que modernizar significasse afastar-se da origem. A cozinha mineira fez o movimento contrário.
Foi voltando para casa que ela chegou ao mundo.
Leônidas Oliveira é secretário de Estado de Cultura e Turismo de Minas Gerais
