POR JOSÉ CACILDO
A transformação dos clubes de futebol brasileiros em organizações administradas como empresas foi uma promessa antiga. A Lei Zico, de 1993, e, posteriormente, a Lei Pelé, de 1998, surgiram sob o discurso de modernização do esporte, profissionalização da gestão e solução dos inúmeros problemas que historicamente atormentavam os clubes.
A promessa, entretanto, esteve longe de resolver o problema em sua essência. Décadas depois, a Lei da SAF, de 2021, voltou a apresentar novos caminhos, atraindo investidores e capital privado. Houve mudanças, aportes milionários e experiências bem-sucedidas, mas também permaneceram dívidas gigantescas, conflitos de interesses e dúvidas sobre a sustentabilidade financeira de muitas instituições.
O futebol brasileiro cresceu como negócio, movimentou cifras extraordinárias e conquistou mercados. A gestão, porém, nem sempre acompanhou essa evolução. Clubes continuaram acumulando passivos, comprometendo receitas futuras e tomando decisões incompatíveis com uma administração responsável. Em 2025, levantamentos financeiros apontaram que o endividamento líquido dos clubes brasileiros havia alcançado R$ 14 bilhões. O problema, portanto, não desapareceu com a chegada de novos investidores nem com a transformação de associações em sociedades empresariais.
Faltaram, em muitos casos, planejamento, transparência, responsabilidade administrativa e compromisso com resultados sustentáveis. Faltaram comando, lucidez nas decisões e conhecimento de gestão. Compromissos não foram honrados, dívidas cresceram e jogadores enfrentaram atrasos salariais e incertezas profissionais. As categorias de base, embora essenciais à formação esportiva e à saúde financeira dos clubes, nem sempre receberam a atenção e os recursos que mereciam. O prejuízo ultrapassou as contas: atingiu a credibilidade das instituições e a confiança de seus torcedores.
Enquanto isso, consolidou-se no imaginário popular a ideia de que todo jogador profissional ganhava fortunas. A realidade sempre foi bem diferente. A pequena parcela de atletas que recebia salários milionários concentrava a atenção da imprensa, enquanto milhares de profissionais de divisões inferiores e clubes menores enfrentavam uma realidade financeira muito mais modesta. A desigualdade econômica dentro do próprio futebol, contudo, continuou sendo uma característica marcante do esporte brasileiro.
Havia jogadores que entravam em campo movidos pelo sonho, pela paixão e, principalmente, pela necessidade de sustentar suas famílias. Muitos dependiam de contratos curtos, conviviam com a insegurança profissional e precisavam enfrentar empresários e intermediários cujos interesses nem sempre coincidiam com os dos atletas. Naturalmente, não se podia generalizar nem condenar toda a categoria, mas tampouco ignorar as relações desequilibradas e as práticas oportunistas que prejudicavam quem menos tinha poder de negociação.
Nos bastidores, o dinheiro sempre exerceu enorme influência. Interesses comerciais, negociações de atletas, contratos de transmissão, patrocínios e disputas políticas passaram a integrar uma engrenagem cada vez mais complexa. Casos de manipulação de resultados e suspeitas de irregularidades também demonstraram que a integridade esportiva precisava de fiscalização permanente. Quando interesses financeiros se sobrepõem à honestidade e à competição justa, quem perde é o futebol e, sobretudo, o torcedor que acompanhava seu clube por amor, não por conveniência ou vantagem financeira.
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A Copa do Mundo de 2014 e os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro, em 2016, ficaram para trás. Com eles, permaneceram debates sobre custos, obras, planejamento, utilização de estruturas e responsabilidade na aplicação dos recursos públicos. A expectativa de que grandes eventos deixassem um legado incontestável de desenvolvimento e organização esbarrou em questionamentos sobre prioridades, desperdícios e resultados efetivos. O espetáculo aconteceu, os estádios receberam multidões e o país viveu momentos de emoção, mas a realização dos eventos não resolveu os problemas estruturais que há muito comprometiam a administração pública e o próprio esporte.
O futebol brasileiro continuava diante de uma contradição: tornara-se um negócio cada vez mais valioso, mas ainda precisava amadurecer em governança, responsabilidade financeira e compromisso com sua função esportiva. A criação de mecanismos de controle financeiro, como o sistema de sustentabilidade apresentado pela CBF em 2025, representou uma tentativa de enfrentar parte desses problemas, com implantação gradual a partir de 2026. A existência de regras, entretanto, só produziria resultados concretos se acompanhada de fiscalização efetiva e aplicação coerente das sanções.
E nós, torcedores continuamos pagando ingressos, comprando camisas, acompanhando campeonatos e sofrendo por resultados como se o futebol fosse apenas um jogo. Talvez seja justamente essa a sua força: a capacidade de despertar sentimentos que nenhum balanço financeiro consegue explicar. Mas paixão não deveria significar cegueira. Amar um clube não exigia aceitar desmandos, justificar incompetência ou fechar os olhos para irregularidades. Era preciso torcer, sim, mas também cobrar, questionar e exigir transparência.
Apesar de todas as decepções, o futebol continuou oferecendo momentos capazes de superar, por alguns instantes, as frustrações produzidas por seus bastidores. Pelé, Zico, Joãozinho, Dirceu Lopes, Tostão, Ronaldinho Gaúcho, Cristiano Ronaldo, Lionel Messi e o genial Neymar, representaram, cada um à sua maneira, a dimensão artística desse esporte. Seus talentos lembraram que o futebol não se resumia a contratos, dívidas, empresários e disputas pelo poder. Havia beleza, criatividade, genialidade e emoção genuína.
Era por isso que, mesmo diante de tantas contradições, continuávamos torcendo. O futebol podia decepcionar como negócio e como instituição, mas permanecia extraordinário quando a bola rolava e o talento falava mais alto.
Sobre o autor
José Cacildo Vasconcelos Souza
Consultor Empresarial
Engenheiro Mecânico
Especialista em eficiência
organizacional há 24 anos
Estruturação completa do
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Instagram : @cacildoconsultor
