POR CHEF BRUNA MATOS
“Mas você nem experimentou!”
Quem nunca ouviu — ou falou — essa frase diante de alguém que recusou um alimento que atire a primeira batata frita. Na cozinha, aprendemos que comer envolve sabor, aroma, textura, temperatura, aparência e memória. Por isso, quando falamos em seletividade alimentar, o assunto é bem mais complexo do que simplesmente “não gostar” de determinado ingrediente.
A seletividade alimentar pode se manifestar pela recusa frequente de determinados alimentos ou grupos alimentares, por um repertório bastante limitado e até por forte resistência a experimentar novidades. Texturas, cheiros, cores, consistências e a forma como o alimento aparece no prato podem influenciar essa aceitação.
E é aí que entra um desafio interessante para nós, profissionais da gastronomia: como tornar um alimento mais convidativo sem transformar a refeição em uma batalha?
Antes do sabor, existe a experiência
Nós comemos primeiro com os olhos — mas não somente com eles. Imagine uma cenoura. Ela pode aparecer crua e crocante, cozida e macia, assada e caramelizada, em purê, ralada, em bolinho ou até incorporada a um molho. É o mesmo ingrediente, mas são experiências completamente diferentes.
Para uma pessoa com seletividade alimentar, essa mudança pode fazer muita diferença.
Na prática profissional, isso nos ensina algo valioso: não basta pensar apenas no que servimos, mas em como servimos. Técnicas culinárias, cortes, apresentações, combinações e diferentes níveis de textura podem aproximar gradualmente uma pessoa de alimentos que antes eram rejeitados.
E atenção: esconder tudo dentro da comida pode até parecer uma solução rápida, mas não necessariamente ajuda na construção de uma relação consciente com aquele alimento. Muitas vezes, o caminho mais interessante é a familiarização.
Cozinha também é lugar de acolhimento
Outro ponto importante é abandonar julgamentos. “Frescura”, “manha” e “come porque está com fome” são frases que pouco contribuem para melhorar a relação de alguém com a alimentação.
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O profissional da gastronomia não substitui nutricionistas, psicólogos, terapeutas ocupacionais, fonoaudiólogos, pediatras ou outros profissionais envolvidos no acompanhamento de casos que necessitem de atenção especializada. Mas podemos — e devemos — fazer parte dessa construção.
Nosso papel está em compreender o alimento e explorar suas possibilidades.
Podemos trabalhar cores de maneira mais agradável, preservar sabores conhecidos enquanto introduzimos pequenas novidades, modificar texturas, criar apresentações divertidas e permitir que o novo ingrediente apareça sem precisar ser imediatamente o protagonista do prato.
É quase como apresentar duas pessoas tímidas: talvez não seja uma boa ideia obrigá-las a virar melhores amigas no primeiro encontro.
Menos pressão, mais descoberta
Principalmente na infância, cozinhar também pode ser uma ferramenta de aproximação. Lavar um tomate, mexer uma massa, escolher um legume na feira, sentir o cheiro de uma erva ou ajudar na montagem do próprio prato são formas de criar familiaridade com os alimentos.
Nem toda interação precisa terminar em uma garfada.
Às vezes, conhecer vem antes de provar.
Para quem trabalha com gastronomia, a seletividade alimentar também nos provoca a sair do automático. Afinal, cozinhar não é apenas dominar receitas. É entender pessoas.
Talvez aquele brócolis rejeitado quando cozido demais encontre uma segunda oportunidade quando assado e crocante. Talvez o problema não seja o tomate, mas sua textura. Talvez um molho precise ficar separado. E talvez hoje a pessoa apenas não esteja pronta para experimentar.
No fim das contas, um bom cozinheiro não é somente aquele que consegue colocar muitos sabores em um prato. É também aquele que entende quando precisa simplificá-lo.
Porque alimentação envolve nutrição, cultura, afeto, memória e individualidade. E quando respeitamos isso, a cozinha deixa de ser o lugar do “você precisa comer” e passa a ser um espaço para descobrir uma nova forma de experimentar sabores.
Sobre a autora
Chef Bruna Matos Meireles, graduada em Tecnologia em Gastronomia. Especialista em Gastronomia Mineira, é Chef e proprietária do Raspas de Limão Culinária Caseira, em Governador Valadares/MG. Jurada do Festival Abrasel Vale do Rio Doce, Campeã Abrachefs Rio 2025 em Culinária Afetiva e Coordenadora Regional Abrachefs MG
