por Sérgio Fonseca
Era uma vez um galo que acordava bem cedo todas as manhãs e dizia para a bicharada do galinheiro:
- Vou cantar para fazer o sol nascer...
Ato contínuo, subia até o alto do telhado, estufava o peito, olhava para a nascente e ordenava, definitivo:
- Có-có-rí-có-có.................................................................
E ficava esperando.
Dali a pouco a bola vermelha começava a aparecer, até que se mostrava toda, acima das montanhas, iluminando tudo.
O galo se voltava, orgulhoso, para os bichos e dizia:
- Eu não falei?
E todos ficavam biqui/abertos e respeitosos ante poder tão extraordinário conferido ao galo: cantar para fazer o sol nascer.
E ninguém duvidava dessa verdade. Tinha sido sempre assim. Também o galo-pai cantava para fazer o sol nascer, o galo bisavô, etc...
Tal poder extraordinário provocava as mais variadas reações no galinheiro e na fazenda. Todos os bichos reconheciam a importância do galo. Todos viviam na fazenda e a vida da fazenda se dá de dia, começa assim que o sol nasce e termina assim que o sol se põe.
Se o galo é que canta para fazer o sol nascer, então todos dependiam dele para viver. Assim, havia grande ansiedade entre os moradores do galinheiro: E se o galo ficar rouco? E se esquecer a partitura? Quem cantaria para fazer o sol? O dia não amanheceria. E por causa disso cuidavam do galo com o maior cuidado e atenção.
Assim, o galo possuía largo prestígio e popularidade devido ao seu grande êxito diário: fazer o sol nascer.
O galo por sua vez para não perder esse sucesso fazia o possível para manter essa imagem poderosa. Sempre empinava o bico, estufava o peito e realçava o tupete para passear na fazenda.
Todos o olhavam de maneira respeitosa e grandiosa. E de acordo com cada grupo que convivia ele agia de maneira que acreditava obter sucesso e reconhecimento. E em nome dessa imagem foi se tornando escravo das aspirações dos outros. Se os cisneis achavam que galo que é galo não dá papo para ninguém, ele (o galo) passava perto deles mais impinado ainda, bem distante e misterioso. Se os patos achavam que o galo que é galo tem que ser bom, caridoso e bastante sociável, ele ia de casa em casa comprimentando cada um, sabia o nome de todos, dava beijos nos patinhos crianças e bebia café em canecas velhas e esmaltadas.
E as representações eram tantas que no fundo o galo foi perdendo o que realmente era, o que gostava e o que queria. E as representações eram tantas que para se proteger e manter sua imagem o galo mantinha relacionamentos não espontâneos e superficiais.
No entanto, o galo por sua vez, tinha enormes oscilações emocionais. Pela manhã, depois de o sol nascer, sentia-se como um Deus, onipotente, admirado e reconhecido por todos. E não era para menos. Mas a noite vinha a depressão, a ansiedade e angústia.
- Não posso perder a hora, ele dizia. Se eu não cantar o sol não vai nascer. E não conseguia dormir um sono tranqüilo. Tinha pesadelos horríveis e insônia. Isto, na verdade acontece com todas as pessoas que se acham poderosas assim. Para sempre sobre elas a ameaça de fim do mundo.
Aconteceu, como era inevitável, que certa madrugada o galo perdeu a hora. Não cantou para fazer o sol nascer.
E o sol nasceu sem o seu canto.
O galo acordou com o rebuliço no galinheiro. Todos falavam ao mesmo tempo.
- O sol nasceu sem o galo... O sol nasceu sem o galo.........
O pobre galo não podia acreditar naquilo que os seus olhos viam: a enorme bola vermelha, lá alto da montanha. Como era possível? Teve um ataque de depressão ao descobrir que o seu canto não era tão poderoso como sempre pensara. E a vergonha era muito. Começou a viver conflitos existenciais. Quem sou eu? Sirvo para que? Agora ninguém vai me amar! E durante muito tempo o galo ficou triste, sentindo-se impotente, só olhando para o chão, sem enxergar o sol que lhe trouxera tanta humilhação e que lhe retirara seu poder. Os bichos, por seu lado, ficaram felicíssimos. Descobriram que não precisavam do galo para que sol nascesse. O sol nascia de qualquer forma, com galo ou sem galo.
Passou-se muito tempo sem que se ouvisse o cantar do galo, de deprimido e humilhado que ele estava. O que era uma pena: porque é tão bonito. Canto de galo e sol nascente combinam tanto. Parece que nasceram um para o outro.
Até que, numa bela manhã, a fazenda foi despertada de novo com o canto do galo. Lá estava ele, como sempre, no alto do telhado, cantando.
- Está cantando para fazer o sol nascer? Perguntou o peru em meio a uma gargalhada.
- Não – o galo respondeu – Antes, quando eu cantava para fazer o sol nascer, eu era doido varrido. Mas agora eu canto porque o sol vai nascer. O canto é o mesmo, Eu é que virei poeta.
Sérgio Fonseca
Psicoterapeuta Cognitivo pela UFMG e TERAPIA DE EMDR BH
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