POR MARCELA FANNI
Uma cirurgia começa atrasada porque o leito ainda não foi liberado. Em outro setor, um paciente permanece internado aguardando um exame que poderia ter sido realizado horas antes. Mais adiante, alguém retorna ao hospital poucos dias depois da alta por uma complicação que poderia ter sido evitada.
Situações diferentes, com a mesma origem: falhas na organização do cuidado que consomem tempo, recursos e comprometem a capacidade de atendimento. A estrutura, os equipamentos e as equipes estavam lá, mas não se transformaram em valor real para o paciente.
É nesse hiato entre o recurso consumido e o resultado entregue que se concentra boa parte do desperdício em saúde. E ele raramente aparece de forma explícita no orçamento. Está escondido nos processos, nos tempos de espera, nas falhas assistenciais e na falta de comunicação entre os serviços.
Um levantamento de 2021, realizado pela plataforma Valor Saúde Brasil (Grupo IAG Saúde) e divulgado no Blue Paper da Saúde Baseada em Valor, analisou 4,09 milhões de altas em 340 hospitais do SUS e da saúde suplementar. O estudo estimou que 53% dos custos assistenciais hospitalares analisados estavam associados a desperdícios.
O percentual impressiona, mas a forma como ele se divide é ainda mais reveladora. Quase metade (49,3%) vem do uso ineficiente de leitos, com pacientes internados além do tempo necessário. Outros 21,3% correspondem a eventos adversos e complicações evitáveis; 13,5% correspondem a reinternações precoces; e 11,5% referem-se a internações que a atenção primária poderia ter prevenido.
Essa distribuição mostra que o problema não tem um único endereço. Parte nasce dentro do hospital, em processos desarticulados; parte surge antes, quando a Atenção Primária não consegue conter o agravamento da doença; e parte se manifesta depois da alta, quando falhas na continuidade do cuidado levam o paciente de volta à internação.
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Essa realidade expõe uma fragilidade crítica da gestão: a ilusão das metas isoladas. Um setor pode cumprir sua tarefa e, ainda assim, o resultado global ser insatisfatório. O exame é realizado, a internação acontece, a alta é registrada. Individualmente, cada etapa parece funcionar, mas a ausência de integração gera atrasos, retrabalho e riscos desnecessários.
Esse é, essencialmente, um desafio de governança. O funcionamento de um hospital depende da articulação entre seus diferentes setores, e o gargalo de uma área pode comprometer toda a assistência. Gerir com eficiência exige olhar o cuidado de ponta a ponta, estabelecer objetivos compartilhados, definir responsabilidades e avaliar resultados que ultrapassem os limites de cada departamento. Sem essa visão sistêmica, os problemas são resolvidos pontualmente, enquanto suas causas continuam comprometendo o desempenho da organização.
Nas duas primeiras colunas deste ciclo, abordamos os incentivos financeiros e a busca por remunerar o valor entregue. A eficiência adiciona uma dimensão prática a essa equação: a capacidade das organizações de converter o financiamento recebido em cuidado efetivo, seguro e oportuno.
Combater o desperdício é, antes de tudo, um compromisso ético e humanitário As perdas registradas nos indicadores e nas planilhas se traduzem, na vida real, em filas, agravamento de doenças e tratamentos que chegam tarde demais. Cada falha de gestão tem um custo que ultrapassa o financeiro. E, na saúde, quem frequentemente paga essa conta é o paciente.
Sobre a autora
Marcela Fanni é preceptora de Gestão em Saúde no curso de Medicina da Univale. Mestre em Engenharia Química e especialista em Gerenciamento de Projetos, atua no desenvolvimento de projetos de saúde e gestão pública.
