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quarta-feira, 20 agosto, 2025

Participantes de audiência engrossam coro por justiça em execução de gari

Laudemir de Souza Fernandes foi assassinado por empresário no último dia 11 de agosto, enquanto trabalhava no bairro Vista Alegre, em Belo Horizonte, em meio a uma briga de trânsito.
Os participantes da audiência da Comissão de Direitos Humanos cobraram celeridade para punir assassino confesso de trabalhador da limpeza urbana. Foto: Elizabete Guimarães ALMG

O clamor por justiça para o assassinato do gari Laudemir de Souza Fernandes, 44 anos, foi a tônica da audiência pública da Comissão de Direitos Humanos, em andamento na Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG) na tarde desta quarta-feira (20/9/25), no Auditório do andar SE. A reunião atende a requerimento da presidenta do colegiado, Bella Gonçalves (Psol), que comanda o debate.

Participam da audiência familiares e seus advogados, representantes da Polícia Civil e da empresa em que a vítima trabalhava. Mas o depoimento que mais emocionou os presentes foi o da esposa de Laudemir, Liliane França da Silva. Em vários momentos os participantes repetiram gritos de "Laudemir presente!".

“Eu estou sofrendo demais, está muito difícil, a gente conversava sobre tudo. Minha casa está muito vazia, meu quarto está muito vazio. Agora eu olho para o lado e não vejo mais ele, mas apesar da dor não vou deixar que essa luta pare”, resumiu Liliane, entre lágrimas.

"Meu marido sempre olhava pela equipe toda (de garis), sempre que tinha algum problema ele estava lá tentando resolver. Os vídeos mostram que ele estava tentando fazer com que o fluxo do trânsito continuasse. Mas as pessoas precisam entender que a vida delas não vai parar por causa de cinco minutos a mais de espera”, completou a viúva.

“Ele achou que estava atirando em um saco de lixo, mas o meu marido não era um saco de lixo. O meu Lau era um homem amado, que tinha família e orgulho de trabalhar como gari. Por isso, nosso maior temor é que esse crime caia no esquecimento e essa pessoa que matou ele saia (do cadeia) pela porta da frente. Nossas leis têm muitas brechas".

Liliane França da Silva - Esposa de Laudemir

Pai de uma filha e funcionário exemplar, segundo descrição de colegas, o trabalhador de limpeza urbana foi assassinado no último dia 11 de agosto, durante a coleta de lixo no bairro Vista Alegre, Região Oeste de Belo Horizonte. O autor confesso dos disparos seria o empresário do setor de alimentos Renê da Silva Nogueira Júnior, 47 anos, que atirou contra Laudemir depois de uma briga de trânsito.

As investigações ainda estão em andamento, mas, segundo informações da Polícia Civil, vídeos obtidos mostrariam o empresário no local do crime e também o teriam flagrado guardando a arma supostamente usada no homicídio. A arma seria da sua esposa, que é delegada da Polícia Civil e agora também é investigada pela Corregedoria da instituição por suposto descuido na guarda da pistola calibre 380.

Renê foi localizado horas depois e preso em flagrante pela Polícia Militar em uma academia. Antes disso teria passeado com seu cachorro.

Agora, está preso preventivamente enquanto aguarda o final das investigações e posterior julgamento. O Ministério Público (MP) pediu e o Tribunal de Justiça (TJMG) concedeu o bloqueio de R$ 3 milhões em bens do casal para garantir eventual indenização à família da vítima.

Segundo o apurado até o momento pela Polícia Civil, o empresário pode ser indiciado por homicídio duplamente qualificado (por motivo fútil e de forma a dificultar a defesa da vítima), porte de arma e ameaças contra uma motorista do caminhão de limpeza urbana. Segundo testemunhas, o assassino confesso teria dito que “iria dar um tiro na cara dela".

O empresário teria se irritado porque o caminhão de lixo teria bloqueado a passagem do seu carro. O gari teria tentado defender a motorista e aí foi executado. Inicialmente, Renê negou envolvimento no crime, mas depois prestou novo depoimento admitindo sua participação.

Colegas na empresa terceirizada onde Laudemir trabalhava protestaram na manhã desta quarta (20), também para pedir justiça para a morte do gari.

Segundo reportagens publicadas na Imprensa, os manifestantes bloquearam parcialmente o trânsito no Anel Rodoviário, sentido Vitória, na altura do bairro Santa Maria, também na Região Oeste. Eles portavam uma faixa com os dizeres:

“Somos garis, não somos lixos. Nossa única esperança é o Tribunal de Justiça e o Ministério Público”.

“Todo mundo que tem um pouco de humanidade se emocionou com esse crime frio e bárbaro. Queremos um julgamento rápido, firme e exemplar. Denunciar as péssimas condições dos trabalhadores da limpeza urbana, na sua maioria negros e negras vítimas de racismo estrutural, e cobrar justiça são papéis da comissão. Precisamos ter a certeza de que esse crime brutal não saia impune.”

Bella Gonçalves
Dep. Bella Gonçalves

Ingredientes de uma tragédia anunciada

Insegurança na rotina de quem trabalha na limpeza urbana, racismo, machismo, impunidade e a disseminação de armas nos últimos anos foram citados na audiência da Comissão de Direitos Humanos como fatores que contribuíram para o assassinato de Laudemir.

“É preciso melhorar a segurança dos trabalhadores da limpeza urbana em um trânsito cada vez mais violento. Infelizmente, a morte do Laudemir não foi um caso isolado. Na mesma semana outro trabalhador morreu atropelado em Uberlândia (Triângulo). Essa categoria não recebe sequer auxílio-periculosidade, que ainda tramita no Congresso Nacional”, advertiu Bella Gonçalves.

“É um assunto que embarga a voz de todos nós. O que aconteceu está permeado por racismo, mas também por machismo porque tudo começou com ameaças a uma mulher”, lembrou Doutor Jean Freire (PT).

Betão (PT) fez coro: “esse crime é resultado da sensação que muitas pessoas hoje têm de que podem tudo e vão sair sempre impunes. A repercussão da morte do Laudemir vai contribuir para que esse empresário seja punido, mas nem sempre isso acontece”.

Adriano Alvarenga (PP) sugeriu que sejam instaladas câmeras de segurança nos caminhões da limpeza urbana para coibir abusos de “pessoas que se acham melhor do que as outras, como era esse homem”.

Liliane, esposa de Laudemir: "Eu olho para o lado e não vejo mais ele, mas apesar da dor não vou deixar que essa luta pare". Foto: Elizabete Guimarães ALMG

Trabalho que ninguém mais quer fazer

A vice-presidente da Comissão, Andréia de Jesus (PT), apontou que a condição social de Laudemir fez dele mais uma vítima da violência urbana.

“O racismo atravessa nossa vida o tempo todo, como para nos colocar para fazer trabalhos que ninguém mais quer fazer, ganhando mal, trabalhando em condições precárias”, disse.

A parlamentar também destacou que o gari morreu com uma arma do Estado e que isso não pode ser ignorado.

“A situação dessa delegada, que não teve o devido cuidado com sua arma, precisa ser apurada. Precisamos desarmar a população, mas também zelar para que aqueles que precisam ter armas tenham responsabilidade”, pontuou.

Outra questão levantada pela parlamentar é a forma como o acusado foi preso e conduzido a uma delegacia, sem algemas e podendo esconder o rosto. A esse questionamento, o advogado da família da vítima, Tiago Lenoir Moreira, refletiu que o procedimento adotado deveria, sim, ser adotado para todos os acusados de crime, independentemente da raça ou condição social. Ele classificou o crime como "cruel, fútil e hediondo", reforçando que a Polícia Civil deve atuar com imparcialidade.

Com informações do site oficial da Assembleia Legislativa de Minas Gerais


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