POR JAMIR CALILI
Há uma diferença entre anunciar uma boa ideia e transformá-la em política pública. Na campanha eleitoral, basta prometer. No governo, é preciso demonstrar como a promessa será executada, quanto custará e de onde sairão os recursos para sustentá-la. Em Governador Valadares, essa diferença parece ter sido esquecida. O episódio da extensão de jornada na educação infantil expõe uma administração que cria expectativas sem oferecer estabilidade.
Toda política pública exige etapas: identificar o problema, formular alternativas, calcular custos, estabelecer metas, implementar, monitorar resultados e corrigir rumos. Revisar não é sinal de fracasso, mas parte de uma boa gestão. O problema começa quando se improvisa a implantação e, diante das dificuldades, improvisa-se também a revisão.
Em janeiro de 2025, a Prefeitura anunciou a ampliação do horário nas creches, promessa de campanha do prefeito. As atividades seriam oferecidas até as 17h, com monitores até as 18h. O governo informou que atenderia 71% dos alunos no primeiro semestre e chegaria a 100% da rede de educação infantil em fevereiro de 2026. Anunciou investimento de R$ 7 milhões. A proposta alcançaria cerca de oito mil crianças.
Nesta semana, porém, a própria Prefeitura divulgou o encerramento do horário estendido a partir de 3 de novembro. A notícia foi reproduzida por vários veículos, inclusive pela Inter TV dos Vales. A justificativa foi a baixa permanência dos alunos até as 18h, inferior a 20%, e questionamentos pedagógicos de profissionais da educação. A decisão afetaria 29 unidades e contratos de trabalho.
Depois da repercussão negativa, o prefeito anunciou que manteria o atendimento, reorganizando as equipes conforme a demanda. Mas procurou associar as críticas à divulgação de informações falsas. Ora, a notícia inicial não nasceu da imaginação da oposição: decorreu da comunicação da própria Prefeitura. Não é razoável anunciar o encerramento de um serviço, recuar e transferir a responsabilidade pela confusão a quem divulgou o anúncio.
Há um aspecto ainda mais grave. O governo passou a chamar de “projeto-piloto” uma iniciativa concebida para alcançar toda a rede. Projetos-piloto exigem escala, prazo, indicadores e critérios previamente definidos. Se o atendimento até as 18h era pouco utilizado, por que o problema não foi identificado antes? Quantas crianças saíam às 16h, 17h ou 18h? Qual era o custo por aluno? Quais alternativas foram avaliadas? Um percentual isolado não responde a essas perguntas.
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Quem tem filhos pequenos sabe que a organização familiar depende de previsibilidade. Pais ajustam empregos e horários aos serviços oferecidos. Uma mãe que trabalha até as 17h não pode descobrir, na última semana de outubro, que terá de buscar o filho às 15h a partir de novembro. A vida das pessoas não pode ser tratada como variável de ajuste de uma comunicação malfeita.
O problema ultrapassa a educação. Em agosto, a própria Prefeitura informou gasto com pessoal equivalente a 57,88% da receita corrente líquida, acima do limite legal de 54%. Isso exige estratégia para receitas e despesas, não improvisação. Também impõe examinar isenções de ITBI à luz da lei e cessões de servidores cujo custo permaneça com o município, sem contrapartida clara.
Veja-se também o “Rua Não É Lar”. Existe um decreto que instituiu a política, e a Prefeitura divulgou números de atendimentos e encaminhamentos. Mas números de ações não substituem avaliação de resultados. O decreto ainda prevê um plano com metas e orçamento: onde está? Quantas pessoas saíram das ruas de forma duradoura? Quais metas, custos e prazos orientam o programa? Como a sociedade civil participa de sua construção? Sem respostas, corre-se o risco de trocar uma política social complexa por uma campanha publicitária.
O Viaduto do Filadélfia oferece outro exemplo. Interditado integralmente em março de 2025 por risco estrutural, só teve o tráfego integral restabelecido em outubro de 2026, com serviços ainda pendentes. A segurança precisava ser preservada. Mas isso elimina o dever de explicar prazos, antecipar alternativas de mobilidade e reduzir os prejuízos a moradores e comerciantes.
Tenho escrito nesta coluna, há anos, sobre as limitações financeiras de Governador Valadares. Conheço a máquina pública e sei que governar exige escolhas difíceis. Justamente por isso, nunca acreditei em soluções mágicas. Quem governa precisa menos de anúncios espetaculares e mais de disciplina, capacidade técnica e coragem para assumir erros.
Sobre o autor
Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.
