Por Jamir Calili
Toda política pública produz vencedores e perdedores. Governar é justamente fazer escolhas. E algumas dessas escolhas são naturalmente impopulares no primeiro momento, embora tragam benefícios permanentes para toda a coletividade. O espaço urbano é um recurso escasso. Uma vaga de estacionamento localizada em frente ao comércio não pertence ao motorista que chegou primeiro. Ela pertence à cidade. Se um único veículo permanece ocupando essa vaga durante todo o dia, centenas de pessoas deixam de utilizá-la. Quem perde não é apenas o cidadão. Perde o comércio, perde a circulação de pessoas, perde a economia local.
É exatamente por isso que praticamente todas as grandes cidades do mundo adotam algum modelo de estacionamento rotativo. Paris, Londres, Nova York, Madri, Lisboa, Buenos Aires, Curitiba, Belo Horizonte e centenas de outras cidades entenderam há muito tempo que administrar vagas públicas não é uma questão arrecadatória. É uma política de mobilidade urbana. O objetivo principal não pode ser arrecadar dinheiro. O objetivo é garantir rotatividade.
A lógica é simples. Uma mesma vaga utilizada por oito clientes diferentes durante um dia produz muito mais desenvolvimento econômico do que a mesma vaga ocupada pelo mesmo carro durante oito horas consecutivas. O comerciante vende mais, o consumidor encontra facilidade para estacionar, prestadores de serviço conseguem realizar atendimentos e toda a dinâmica econômica se torna mais eficiente.
Curiosamente, muitos dos maiores defensores do fim da Zona Azul são exatamente aqueles que reclamam da dificuldade para encontrar vagas na região central. E eu pergunto a você leitor: quantas vezes você deixou de comprar por falta de vaga? Eu posso assegurar que eu já desisti diversas vezes. Se a cobrança é o maior problema apontado pela sociedade, existem alternativas. É perfeitamente possível discutir tarifas menores, períodos gratuitos de permanência, descontos para moradores ou mesmo um sistema híbrido. O que não parece razoável é abandonar completamente a ideia de organizar o uso do espaço urbano.
Aliás, se houver cobrança, ela pode cumprir uma função social relevante. Em diversas cidades, a arrecadação do estacionamento rotativo ajuda a financiar o transporte coletivo, melhorias na mobilidade urbana, programas de acessibilidade, assistência social ou investimentos em saúde. O cidadão paga uma pequena quantia para utilizar temporariamente um bem público e esse recurso retorna para a própria comunidade.
Mas ainda que a cidade optasse por um modelo gratuito, alguma forma de controle da rotatividade continuaria sendo indispensável. O problema nunca foi o pagamento em si. O verdadeiro problema é transformar um espaço público de uso coletivo em uma ocupação praticamente privada durante todo o expediente comercial.
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Há outro aspecto que precisa ser enfrentado. Nossa cultura urbana foi construída em torno da ideia de que sempre haverá espaço para mais carros. Não haverá. Essa lógica é infinita. Quanto mais vias são abertas, mais veículos passam a utilizá-las. Quanto mais vagas surgem, maior é a demanda por novas vagas. É um ciclo conhecido por urbanistas no mundo inteiro.
As cidades mais bem planejadas perceberam que mobilidade urbana não significa apenas facilitar o automóvel. Significa equilibrar carros, transporte coletivo, bicicletas, caminhadas, acessibilidade e uso inteligente dos espaços públicos. Isso exige planejamento. Exige capacidade técnica. E, principalmente, exige coragem política.
Nem toda decisão correta será popular quando for tomada. Muitas vezes, o papel do gestor público não é simplesmente confirmar aquilo que a população deseja ouvir, mas explicar por que determinadas medidas são necessárias para melhorar a cidade no futuro. Uma cidade competitiva, que valoriza seu comércio, organiza sua mobilidade e respeita o espaço coletivo não se constrói apenas com obras. Constrói-se também com políticas públicas consistentes, capazes de organizar o cotidiano das pessoas.
Administrar uma cidade é muito mais do que governar o presente. É preparar o futuro. E, às vezes, isso significa tomar decisões que exigem mais responsabilidade do que aplausos.
Sobre o autor
Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.
