Quem cuida do paciente entre uma consulta e outra?

Quando os serviços não se comunicam, o cidadão assume a responsabilidade por percorrer o sistema de saúde

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Imagine a cena: você vai ao posto de saúde, passa pelo médico e recebe um encaminhamento para um especialista. Entra na fila e espera meses. Quando a consulta finalmente acontece, o especialista solicita exames e, para continuar o tratamento, você precisa voltar à unidade de origem. Nesse vai e vem, informações se perdem. O médico do posto não sabe o que o especialista orientou, o especialista não conhece seu histórico e, quando consegue retornar, seu quadro clínico já nem é o mesmo.

O que deveria ser uma jornada organizada vira uma sequência de atendimentos desconectados.

Essa é uma fragilidade importante do SUS. Embora organizado em diferentes níveis de atenção, da unidade básica ao hospital, o sistema nem sempre garante a continuidade do cuidado. Cada serviço cumpre sua função, mas o paciente precisa encontrar sozinho o caminho até o próximo atendimento.

A fragmentação tem consequências concretas. Exames repetidos, tratamentos interrompidos e doenças que se agravam durante a espera. Para uma pessoa idosa, com condições crônicas, pode significar perda de autonomia e até da vida. Para o sistema, representa desperdício, sobrecarga e custos adicionais.

O problema também está na avaliação dos resultados. A gestão contabiliza encaminhamentos, consultas e procedimentos, mas nem sempre acompanha o cidadão entre uma etapa e outra. Uma consulta realizada representa uma meta cumprida, mesmo que o tratamento permaneça incompleto.

Administrar serviços não é coordenar uma rede. Envolve organizar equipes, recursos e atendimentos. Coordenar uma rede exige definir como eles se conectam, quais informações devem circular e quem responde quando o percurso do paciente é interrompido.
Na prática, o hospital deve comunicar à unidade básica as condições da alta, o especialista deve compartilhar suas orientações com a equipe de origem e a regulação precisa considerar a gravidade clínica e o tempo de espera, além da disponibilidade de vagas. E alguém precisa perceber quando o paciente não retorna.

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A desconexão entre hospitais e atenção primária é apontada como uma das causas da fragmentação dos sistemas universais de saúde. Com o envelhecimento da população e o aumento das doenças crônicas, um modelo voltado a episódios isolados torna-se insuficiente.

Superar essa fragmentação exige sistemas de informação que se comuniquem, fluxos de referência e contrarreferência que funcionem, responsabilidades definidas e gestores capazes de identificar onde o cuidado está sendo interrompido. Exige, sobretudo, superar uma cultura em que cada unidade responde por sua própria produção, enquanto o resultado do paciente permanece em segundo plano.

Sobre a autora

Marcela Fanni é preceptora de Gestão em Saúde no curso de Medicina da Univale. Mestre em Engenharia Química e especialista em Gerenciamento de Projetos, atua no desenvolvimento de projetos de saúde e gestão pública.

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