POR MARCELA FANNI
Ao entrar em um hospital ou tentar resolver um problema no plano de saúde, você já se perguntou quem está realmente no comando?
A pergunta parece simples, mas a resposta revela uma grande ferida do setor. A saúde brasileira está cheia de bons gestores, quase todos sufocados pela operação diária. O problema é que a estrutura ao redor deles raramente governa. Há uma confusão crônica entre administrar a rotina e definir a direção estratégica do sistema. E essa falta de rumo custa vidas, tempo e bilhões de reais.
Ao longo desta série, debatemos desperdício, segurança do paciente, atenção primária, dados, remuneração e sustentabilidade. À primeira vista, pareciam desafios isolados. Não são. Todos esbarram no mesmo gargalo: a ausência de uma governança que estabeleça com clareza quem decide, como decide e quem responde pelos resultados.
Mesmo o gestor mais brilhante se torna impotente em um sistema sem direção. Uma instituição pode ter profissionais talentosos, tecnologia de ponta e orçamento robusto, mas continuará produzindo filas e desperdício se operar como um conjunto de ilhas isoladas. A assistência decide uma coisa, o financeiro corta outra e a tecnologia compra softwares incompatíveis. O resultado é o oposto de um organismo vivo: cada setor tenta otimizar o seu pedaço e acaba piorando o sistema inteiro.
Receba as principais notícias de Valadares e do Leste de Minas direto no seu WhatsApp. É gratuito.
É aqui que entra a governança. Não como mais uma camada de burocracia, mas como a bússola que orienta a gestão. Se a gestão faz a máquina rodar, a governança define o rumo, estabelece prioridades e garante que todos caminhem na mesma direção em torno de um objetivo comum. Sem ela, dados viram gráficos inúteis na parede, protocolos são ignorados e a segurança do paciente vira mero discurso.
O maior equívoco da saúde contemporânea é acreditar que novos recursos, mais tecnologia ou mais protocolos resolverão problemas que, na verdade, são de coordenação. O fato é que sobram esforços individuais e falta alinhamento institucional. Governar é estabelecer prioridades clareadoras, enfrentar conflitos estruturais e dar sustentação ao trabalho da ponta. Nenhum sistema melhora de forma consistente quando ninguém assume, de fato, a responsabilidade por integrá-lo.
Sistemas não se transformam acumulando mais tarefas sobre os ombros dos gestores, mas dando a eles uma direção clara. Antes de discutir novos orçamentos ou softwares milagrosos, a saúde precisa responder à pergunta: afinal, quem está conduzindo o sistema?
Sobre a autora
Marcela Fanni é preceptora de Gestão em Saúde no curso de Medicina da Univale. Mestre em Engenharia Química e especialista em Gerenciamento de Projetos, atua no desenvolvimento de projetos de saúde e gestão pública.
