por Dylan Pretto
Todo dezembro aparece uma onda de comentários tentando transformar Jesus num mascote para guerras culturais do século XXI ou ainda simplesmente tentar deslegitimar a sua própria relevância. É quase um ritual sazonal, surgem postagens sensacionalistas querendo te convencer que, na verdade, Jesus era um “negro palestino”, um “ativista socialista”, um “revolucionário anti-religião”, tudo emulsificado em militância e memes preguiçosos. A ironia é que essas versões virais de Jesus têm menos a ver com “a real história que esconderam de você” e mais a com desejos ideológicos contemporâneos. Afinal, todo mundo quer a melhor pessoa que já existiu do seu lado.
A partir disso, comentarei um pouco sobre como história não se curva à agenda. Jesus nasceu em Belém da Judeia (Judeia, não “Palestina” no sentido identitário moderno). Variantes do nome Palestina existiam na Antiguidade como termo geográfico, mas não como categoria étnica do século I. A popularização do termo como designação política ocorreu séculos depois, especialmente após a revolta de Bar Kokhba, quando Roma renomeia a região para Syria Palaestina como punição contra os judeus. No primeiro século, ninguém se via como “palestino” nesse sentido moderno. Dizer que Jesus era palestino é tão anacrônico quanto chamar Alexandre Magno de eslavo porque os povos que hoje vivem na Macedônia foram eslavizados milênios depois. Jesus era um judeu galileu do Segundo Templo, de tradição semita, e o debate sobre cor de pele é uma estranha obsessão contemporânea que nada tem a ver com seu ministério salvífico, normalmente feita como gancho político justamente por pessoas que querem subverter uma fé que eles mesmos não compartilham. Antropologicamente, Jesus teria a aparência comum dos judeus daquela região na época: mediterrâneo semita. Não negro subsaariano, não nórdico europeu. Insistir em sua aparência como argumento ideológico diz muito mais sobre quem comenta do que sobre quem Jesus foi.
Outra presepada é o bufão anacronismo de colocar Jesus como o primeiro socialista. “Mas ele alimentou os pobres, criticou os ricos e reprovou as autoridades religiosas!”. É de uma leitura altamente infantil deturpar caridade voluntária e amor ao próximo como doutrina econômica. O socialismo (em todas as suas vertentes) exige aparato estatal, teoria de classes, propriedade coletiva dos meios de produção elementos inexistentes nas palavras de Cristo. Ele não pregou redistribuição forçada, mas conversão pessoal. Ele não propôs revolução política, mas arrependimento moral. A lógica de Cristo é vertical, espiritual, pessoal, não horizontal e estatal. Aliás, seria ainda necessário lembrar que Marx acreditava que a religião era o ópio do povo?
“Mas Jesus não fundou religião nenhuma, ele só pregava espiritualidade com Deus!” Jesus não surgiu como um mestre iluminado pairando acima de instituições, meu jovem esotérico. Ele formou discípulos, entregou autoridade, instituiu ritos, deixou mandamentos e organizou uma comunidade real. Falou explicitamente em igreja ao dirigir-se a Pedro e vinculou a vida dos seguidores a práticas como o batismo e a Eucaristia, nada disso combina com espiritualidade a granel.
O termo usado nos evangelhos é ekklesia, tradução do hebraico qahal, “assembleia convocada de Deus” no Antigo Testamento. Jesus provavelmente o expressou em aramaico, mas o conceito era o mesmo: um povo reunido por autoridade, com missão, identidade e continuidade. Era um espaço judaico consolidado do século I, não uma metáfora bonitinha para congregação hippie. Ao dizer “edificarei a minha ekklesia”, Ele reivindica fundar um novo povo, estruturado ao redor de Sua pessoa e da autoridade apostólica. Por isso, a ideia de Igreja não caiu de um concílio medieval. Está no vocabulário do próprio Jesus e na matriz bíblica que Ele assume conscientemente. Poucas décadas depois, as cartas paulinas já registram comunidades organizadas, questões disciplinares, liturgia, fórmulas sacramentais e uma teologia integrada de fé, culto e vida moral. No século I, separar espiritualidade interior de prática comunitária simplesmente não fazia sentido; isso é invenção moderna. A narrativa de que Jesus “só pregou amor” e que a Igreja veio depois como burocracia é um recorte preguiçoso: no ensino dele, amor se encarna em mandamentos, culto e comunidade, exatamente o que permite que uma tradição sobreviva e se torne religião.
Chegamos ao clássico anual: a Igreja inventou o Natal sincretizando rituais pagãos. Aqui entra a diferença entre sincretismo e inculturação. Sincretismo é fusão religiosa real, inculturação é usar elementos culturais neutros sem alterar a fé. O que aconteceu foi o segundo. Os cristãos resignificaram datas simbólicas já presentes no calendário romano, algo muito mais parecido com pedagogia civilizatória do que com mistura doutrinária. Celebrar Cristo como a luz do mundo no dia em que os romanos celebravam o retorno da luz solar não faz ninguém adorar ídolos romanos. Significa apenas a união de catequese e expertise. É claro que não sabemos a data exata no calendário moderno, os judeus do primeiro século nem usavam o mesmo sistema que a gente. Mas a escolha do dia não é arbitrária: já existiam cálculos teológicos antigos que ligavam a data da encarnação ao solstício e ao simbolismo de Cristo como verdadeira luz. A tradição estabelece o dia por conveniência teológica.
Tentar moldar o Filho de Deus à nossa imagem e semelhança ideológica é doentio, quando a civilização ocidental como a conhecemos existe justamente porque Ele veio para transformar a nossa imagem, não o contrário. É curioso como as pessoas que mais tentam atualizar Jesus são as que menos suportam encarar o Jesus real, o judeu do primeiro século que pregou arrependimento, exigiu conversão radical, falou de juízo e pediu a cada indivíduo que carregasse sua própria cruz. A história não precisa se adaptar às carências políticas do presente. E Jesus definitivamente não cabe nessas caricaturas coloridas que aparecem todo fim de ano. Ele não é modificável. Não foi e não será. Ele é.
Feliz Natal a todos.
Dylan Pretto é formado em Direito, artista plástico, crítico de arte e escritor





