Logo Jornal da Cidade - Governador Valadares
Banner
domingo, 30 novembro, 2025

Valadares em Movimento: a história contada Passo a Passo

Leia a coluna desta semana de Jamir Calili
Governador Valadares. Foto: Reprodução da Internet

por Jamir Calili

Há histórias que uma cidade conta com palavras, e há outras que ela conta com o corpo. Nos dias 22 e 23 de novembro, a Escola de Dança Passo a Passo, guiada por Sumaya Pinheiro Ali Alvarenga, fez isso: convidou Governador Valadares a se olhar no espelho de suas memórias. Celebrando 35 anos de dedicação à arte, a escola apresentou seu já tradicional espetáculo anual, desta vez inspirado na alma valadarense, sob o título “Valadares: um rio de memórias”.

A coreografia “Rio Doce: águas que contam histórias” abriu o evento e nos lembrou que nossa história não começou com construções, mas com as águas que moldaram nossos caminhos. Logo depois, um gesto de maturidade histórica: “Habitantes originários: guardiões da natureza”. Um reconhecimento necessário de que esta terra já era pátria de muitos, antes de ser nossa. Como não se emocionar quando o espetáculo nos levou ao encontro da Ibituruna, “a pedra negra que guarda a cidade”? Este encontro será relembrado ao final em “Céu de esperança: um olhar para o futuro”, nos lembrando que somos, também, lugar de voo, seja de asas-deltas ou de sonhos. O calor que nos acompanha o ano inteiro ganhou brilho especial em “O sol de Valadares: aqui ele brilha mais”, embora os sutis movimentos de mãos abanando tenham marcado presença em vários atos. Este, tal como outros, foi dançado pelas crianças, que com sua leveza lembraram que a cidade também se renova no riso infantil. E se falamos em crianças, falamos em doce. O encanto delas marcou presença em “Açucareira doce riqueza”, passado de glória, presente não tão adocicado.

A narrativa seguiu para “a vida no campo: os primeiros povoados”, celebrando as raízes rurais que antecederam a urbanização acelerada do século passado. Quando a música mudou para “A estrada de ferro: trilhos que movem a cidade”, o espetáculo uniu memória e identidade: nossos trilhos são símbolos de encontros, despedidas, progresso e saudade. A nossa mineiridade marcou o tom em “Cafezinho: entre a prosa e o progresso”, lembrando que este gesto simples sustenta sociabilidades, negócios e afeto.

Para mim, houve um momento de emoção íntima: “Águas-Marinhas: pedras preciosas”, dança em que minha filha Clara se apresentou, nos recordou nossa riqueza natural. A partir daí, o espetáculo fez uma transição elegante: do natural ao urbano: do natural ao urbano, da formação original aos primeiros contornos de cidade. Vieram “Mensageiro da emancipação” e “Crescimento urbano: as notícias se espalham”, com dois tons diferentes: o forte e tenso do amadurecimento e o agitado e vibrante das décadas que se seguiram à nossa emancipação. O espetáculo seguiu revelando a força da nossa vocação comercial, celebrada em “Dia de compra: nas vitrines do centro” e em “Mercado Municipal: de tudo um pouco”.

Houve espaço, ainda, para reconhecer nossa vocação educadora em “Formandas: cidade universitária”, lembrando que Valadares é hoje polo de saber. E, com sensibilidade, a escola tocou em uma de nossas maiores marcas sociais: “Partidas e retornos: entre o sonho e a saudade”. Não nos reduziu ao estigma da emigração; mostrou que somos ponto de ida e volta, cidade que envia e acolhe, feita de mundos e afetos.

Já na reta final, o ato “Amor por Valadares” foi uma declaração de amor de Sumaya à cidade. Em seguida, em “O valor de cada passo”, ela própria entrou em cena. O público percebeu um recado silencioso, cheio de gratidão, alegria e nostalgia, mas também de incertezas sobre os desafios do futuro. Toda instituição longeva enfrenta o dilema do legado: honrar o passado, marcar o presente e dialogar com o amanhã. Com dignidade e talento, esses passos serão bem conduzidos. É verdade que os tempos são outros e novos movimentos virão. Novos ritmos e músicas farão os corpos se moverem; a arte e a dança sempre se reinventam, abrindo espaço para releituras. Assim, o “Grand Finale: Saudades Carnaval” reuniu todo o elenco ao som do Carnaval que embalou nossa cidade, trazendo lembranças de um tempo que não volta, mas marcou nossa cultura. O destaque ficou para as ex-alunas, que reforçaram a ideia de permanência: a Passo a Passo não somente celebra a memória da cidade; é parte dela.

Celebrar os 35 anos da Passo a Passo é celebrar a persistência em um campo onde disciplina e criatividade, rigor e flexibilidade, convivem em tensão permanente. Sumaya soube, ao longo desse tempo, equilibrar essas tensões. Conhecida pela sua firmeza e disciplina, educou pela dança para a vida. Difícil citar todos os envolvidos, mas impossível não reconhecer: educar pelo movimento é educar para a sensibilidade, a cooperação e o respeito ao corpo e à nossa história coletiva. A direção de Sumaya Ali, o trabalho dedicado de Isabela Alves, Laura Ferreira, a contribuição do coreógrafo convidado Juliander Agrizzi: tudo isso compôs um mosaico que honra nossa cultura. Por isso, ao celebrarmos esta escola, celebramos também a cidade que dança através dela.

Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.

Gostou? Compartilhe...

Leia as materias relacionadas

magnifiercrossmenu