por Dylan Pretto
Nos debates sobre inteligência artificial e arte, um argumento recorrente é a comparação entre velas e lâmpadas: "as velas não desapareceram com a invenção da lâmpada, assim como a arte humana não desaparecerá com a IA". Essa analogia é uma falsa equivalência que ignora um ponto crucial: velas e lâmpadas são produtos utilitários, enquanto a arte é expressão, subjetividade e identidade. Se a IA dominar o mercado artístico, a criação humana pode ser empurrada para um nicho de luxo ou hobby, limitando sua viabilidade econômica e sua relevância a um apego purista.
Essa visão distorcida não se restringe à tecnologia, mas também está presente na ideia de que "atribuir valor monetário à arte é reduzi-la a um produto". Esse pensamento ignora que toda produção cultural tem custo e que artistas também precisam sobreviver. Nenhuma outra profissão é condenada por ser remunerada: jogadores de futebol, médicos e engenheiros recebem por seu talento e dedicação. Então, por que o artista deveria abrir mão do direito de viver do que sabe fazer com maestria?
Essa romantização da arte como algo "puro" e separado do mundo material é uma falácia naturalista. A arte é alimento para a alma, mas isso não significa que deve ser gratuita. Ninguém exige que padeiros doem pão porque "comida é essencial". A mesma lógica se aplica à arte: se ela tem valor para quem consome, deve ter valor para quem a cria.
No contexto da IA, a diferença entre a criação humana e a geração automatizada é gritante. Um artista imprime sua identidade em cada traço, composição e temática. Seu estilo é uma extensão de sua experiên- cia e de seu olhar único sobre o mundo. Já a IA recicla padrões, reorganizando estéticas preexistentes sem verdadeira intencionalidade. Ela pode simular, mas não sentir, e sem sentimento, não há expressão genuína.
Defender que arte não deve ser paga é condenar o artista à marginalidade. É exigir que ele trabalhe de graça enquanto o resto da sociedade monetiza seu ofício. E quando a música e o cinema forem absorvidos por prompts, ainda será “drama de taxista”? Não é a mercantilização da arte que a desvaloriza — é negar seu valor econômico. Por que não reservar apenas o ofício repetitivo e cansativo aos robôs, e deixar o abstrato para quem possui alma?
Dylan Pretto é formado em Direito, artista plástico e crítico de arte





