Por Hermes Marcos Vasconcelos Soares
A política brasileira possui uma categoria de candidatos que ascende rapidamente, mobiliza grandes audiências e lidera pesquisas iniciais, mas frequentemente encontra um teto de vidro na reta final. São os expoentes da “política da indignação”, que transformam o descontentamento popular em palanque. Hélio Costa, Celso Russomanno e, mais recentemente, Cleitinho compõem essa linhagem, cada um operando em seu contexto histórico e através de ferramentas específicas.
O fenômeno nasce da emoção e da revolta. Surge da cena em que alguém foi humilhado, desperdiçou dinheiro público ou abusou do poder. É nesse momento que o personagem aponta o dedo e diz: “eu estou do seu lado”. É uma estratégia eficaz de identificação simbólica; porém, a trajetória desses nomes revela que, embora a indignação capture a atenção, ela raramente sustenta, por si só, uma candidatura majoritária até a vitória.
A análise histórica desses perfis revela dinâmicas distintas:
Hélio Costa construiu sua força na credibilidade da televisão, uma figura familiar no imaginário de gerações. Sua força advinha da voz, da imagem e da confiança pública forjada pela tela, operando dentro de uma lógica de máquinas partidárias e alianças tradicionais que, embora poderosas no início, sofrem desgaste sob o escrutínio da comparação na reta final.
Celso Russomanno estabeleceu outro tipo de capital: a defesa direta do consumidor. Ele dramatizou a defesa de direitos, tornando-se o mediador da justiça em cena. Contudo, essa marca enfrentou limites quando o debate se deslocou para a complexidade da gestão majoritária — orçamento, transporte e saúde pública —, onde a pergunta sobre a capacidade administrativa se sobrepôs à simpatia pelo defensor.
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Cleitinho representa a versão mais recente e digital desse modelo. Sua arena é a rede social; seu combustível é o vídeo curto e a linguagem irônica. Ele se apresenta como alguém não contaminado pelo sistema, mesmo estando dentro dele. Sua força é a conexão direta, mas seu desafio, assim como seus antecessores, é a transição da denúncia para a solução.
O desafio comum é a passagem da “representação expressiva” para a “competência executiva”. O eleitor, inicialmente, busca quem fale por sua raiva; na reta final, ele busca quem tenha viabilidade e preparo para governar. É nesse momento que o contraste entre o “denunciador” e o “gestor” se torna visceral. Enquanto o primeiro constrange culpados, o segundo precisa articular orçamentos, negociar com o Legislativo e enfrentar o desgaste da administração.
Nesse cenário, emerge o contraponto técnico, exemplificado por perfis como Flávio Roscoe. Com profundo conhecimento sobre gestão e sobre as necessidades infraestruturais e energéticas de Minas Gerais, Roscoe personifica a política que fundamenta a discussão em diagnósticos de Estado. Ele representa a alternativa onde a viabilidade técnica e o conhecimento profundo das disponibilidades do Estado buscam suplantar a política puramente performática.
A pergunta que define o pleito deixa de ser apenas “quem me representa na minha raiva?” e passa a ser: “quem tem preparo para governar a minha esperança?”. A rede social premia o confronto, mas a administração pune quem simplifica demais.
A conclusão é clara: a política da indignação abre portas, mas a política da solução é quem garante a governabilidade. O futuro exigirá a capacidade de integrar ambas as dimensões: manter a conexão popular sem abdicar da profundidade necessária para a gestão. O eleitor, embora indignado, é um ator racional que, diante da urna, separa o comunicador do administrador. Em última análise, quem quiser romper o teto da reta final precisará demonstrar, com a mesma clareza com que critica o erro, a robustez de seus projetos de solução.
Sobre o autor:
Hermes Marcos Vasconcelos Soares. Engenheiro civil e empresário, com quase sete décadas de vivência e atento observador dos rumos da política e da gestão pública.
