Conversando recentemente em uma roda de educadores surgiu a seguinte pergunta: e se a criança que queria sentar-se à janela do avião fosse autista?
Primeiro há que se considerar que é natural que toda criança tenha um encantamento por janelas. Afinal, o que há do outro lado? Também é natural que toda criança pequena, em algum momento, faça birra, chore, grite ou esperneie, numa tentativa de resistir a uma situação que lhe pareça desconfortável.
Mas hoje não vou explorar o comportamento da mãe, ou da passageira, bancária, que se negou a ceder o lugar à criança ou a atitude da advogada que afirmou ter gravado o vídeo e postado em uma rede social. Vamos pensar empaticamente, considerando a hipótese de a criança ser neuroatípica ou neurodivergente.
Voltemos, portanto, à pergunta: e se a criança que queria sentar-se à janela do avião fosse autista? Independente de ser ou não autista, o lugar estava reservado à passageira. Ponto. Não vamos emitir juízo a favor ou contra sua atitude.
Convido-os, enquanto pais e educadores, a nos atermos às estratégias para lidar com comportamentos desafiadores, adaptando-as ao contexto específico do avião. Mas que se aplicam a diversas circunstâncias envolvendo crianças autistas.
Para a mãe:
Manter a calma: Reações de ansiedade ou frustração da mãe podem aumentar a angústia da criança. Respirar fundo, controlar as próprias emoções e falar com voz calma, porém firme, são essenciais.
Empatia e validação: Reconhecer os sentimentos da criança, mesmo sem concordar com o comportamento. Frases como "Eu sei que você está muito chateada por não poder sentar na janela" validam sua experiência emocional.
Comunicação visual e alternativa: Se a criança usa algum sistema de comunicação alternativa, ou Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), utilizá-lo para entender a razão do choro. Se não, tentar usar imagens ou gestos para mostrar empatia e comunicar opções alternativas.
Preparação antecipada: No futuro, planejar a viagem com mais cuidado. Mostrar fotos ou vídeos do avião, explicar o procedimento de embarque e o que esperar durante o voo pode ajudar a reduzir a ansiedade. Explorar a possibilidade de assento na janela com antecedência.
Estratégias sensoriais: Tentar oferecer estímulos sensoriais que ajudem a criança a se acalmar. Se ela gosta de algo específico (brinquedo, música, objeto sensorial), ter isso disponível.
Procurar ajuda da tripulação: Informar a tripulação sobre o Transtorno do Espectro Autista, (TEA), da criança e as necessidades dela. A tripulação pode oferecer apoio e, possivelmente, alternativas (um passeio pela aeronave antes do voo, por exemplo, caso a janela seja um elemento sensorial significativo).
Procurar um local mais tranquilo: Se possível, tentar se afastar do corredor, procurando um lugar mais calmo para minimizar os estímulos externos.
Para as pessoas em redor:
Empatia e paciência: Entender que o comportamento da criança é resultado de uma condição neurológica e não um ato de birra proposital. Oferecer apoio silencioso e compreensão.
Evitar julgamentos: Não fazer comentários negativos, olhares de reprovação ou sussurros. Isso só intensificará a angústia tanto da criança quanto da mãe.
Oferecer ajuda: Se a mãe precisar de ajuda para acalmar a criança, oferecer suporte discretamente. Porém, não se intrometer sem ser convidado.
Respeitar o espaço: Manter uma distância respeitosa e evitar interações não solicitadas.
Há que se considerar que a janela pode representar um interesse sensorial específico para uma criança autista (visão, luz, etc.). A perda desse elemento pode ser significativamente angustiante.
A rotina e a previsibilidade são importantes para crianças com TEA. A viagem de avião é um evento fora do comum, que pode ser muito estressante. Cada criança autista é única; o que funciona para uma pode não funcionar para outra. A mãe conhece melhor seu filho e suas necessidades.
Essas estratégias para lidar com comportamentos desafiadores ajudam-nos a refletir, mas a abordagem precisa ser adaptável para lidar com a situação específica de cada criança no espectro. O foco deve estar na compreensão, na validação dos sentimentos da criança e no apoio à mãe e à criança em um ambiente potencialmente estressante.
Sobre o autor
Marcelo Augusto dos Anjos Lima Martins
Mestre em Gestão e Avaliação da Educação Pública - UFJF
Especialista em Psicopedagogia – UCAM
Especialista em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e o Mundo do Trabalho - UFPI
Pedagogo do IFMG Campus Governador Valadares





