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terça-feira, 10 dezembro, 2024

E se a criança que queria sentar-se à janela do avião fosse autista?

O psicopedagogo Marcelo Augusto, do IFMG/GV, convida pais e educadores para pensar as estratégias de lidar com comportamentos desafiadores, adaptando-as ao contexto específico do avião.
Imagem ilustrativa mostrando o encantamento de crianças com janelas, especialmente as janelas dos aviões. Foto: Reprodução da Internet

Conversando recentemente em uma roda de educadores surgiu a seguinte pergunta: e se a criança que queria sentar-se à janela do avião fosse autista?

Primeiro há que se considerar que é natural que toda criança tenha um encantamento por janelas. Afinal, o que há do outro lado? Também é natural que toda criança pequena, em algum momento, faça birra, chore, grite ou esperneie, numa tentativa de resistir a uma situação que lhe pareça desconfortável.

Mas hoje não vou explorar o comportamento da mãe, ou da passageira, bancária, que se negou a ceder o lugar à criança ou a atitude da advogada que afirmou ter gravado o vídeo e postado em uma rede social. Vamos pensar empaticamente, considerando a hipótese de a criança ser neuroatípica ou neurodivergente.

Voltemos, portanto, à pergunta: e se a criança que queria sentar-se à janela do avião fosse autista? Independente de ser ou não autista, o lugar estava reservado à passageira. Ponto. Não vamos emitir juízo a favor ou contra sua atitude.

Convido-os, enquanto pais e educadores, a nos atermos às estratégias para lidar com comportamentos desafiadores, adaptando-as ao contexto específico do avião. Mas que se aplicam a diversas circunstâncias envolvendo crianças autistas.

Para a mãe:

Manter a calma: Reações de ansiedade ou frustração da mãe podem aumentar a angústia da criança.  Respirar fundo, controlar as próprias emoções e falar com voz calma, porém firme, são essenciais.

Empatia e validação: Reconhecer os sentimentos da criança, mesmo sem concordar com o comportamento. Frases como "Eu sei que você está muito chateada por não poder sentar na janela" validam sua experiência emocional.

Comunicação visual e alternativa: Se a criança usa algum sistema de comunicação alternativa, ou Comunicação Aumentativa e Alternativa (CAA), utilizá-lo para entender a razão do choro.  Se não, tentar usar imagens ou gestos para mostrar empatia e comunicar opções alternativas.

Preparação antecipada: No futuro, planejar a viagem com mais cuidado. Mostrar fotos ou vídeos do avião, explicar o procedimento de embarque e o que esperar durante o voo pode ajudar a reduzir a ansiedade.  Explorar a possibilidade de assento na janela com antecedência.

Estratégias sensoriais: Tentar oferecer estímulos sensoriais que ajudem a criança a se acalmar.  Se ela gosta de algo específico (brinquedo, música, objeto sensorial), ter isso disponível.

Procurar ajuda da tripulação: Informar a tripulação sobre o Transtorno do Espectro Autista, (TEA), da criança e as necessidades dela.  A tripulação pode oferecer apoio e, possivelmente, alternativas (um passeio pela aeronave antes do voo, por exemplo, caso a janela seja um elemento sensorial significativo).

Procurar um local mais tranquilo: Se possível, tentar se afastar do corredor, procurando um lugar mais calmo para minimizar os estímulos externos.

Para as pessoas em redor:

Empatia e paciência:  Entender que o comportamento da criança é resultado de uma condição neurológica e não um ato de birra proposital.  Oferecer apoio silencioso e compreensão.

Evitar julgamentos:  Não fazer comentários negativos, olhares de reprovação ou sussurros.  Isso só intensificará a angústia tanto da criança quanto da mãe.

Oferecer ajuda:  Se a mãe precisar de ajuda para acalmar a criança, oferecer suporte discretamente.  Porém, não se intrometer sem ser convidado.

Respeitar o espaço: Manter uma distância respeitosa e evitar interações não solicitadas.

Há que se considerar que a janela pode representar um interesse sensorial específico para uma criança autista (visão, luz, etc.).  A perda desse elemento pode ser significativamente angustiante.

A rotina e a previsibilidade são importantes para crianças com TEA.  A viagem de avião é um evento fora do comum, que pode ser muito estressante. Cada criança autista é única; o que funciona para uma pode não funcionar para outra.  A mãe conhece melhor seu filho e suas necessidades.

Essas estratégias para lidar com comportamentos desafiadores ajudam-nos a refletir, mas a abordagem precisa ser adaptável para lidar com a situação específica de cada criança no espectro.  O foco deve estar na compreensão, na validação dos sentimentos da criança e no apoio à mãe e à criança em um ambiente potencialmente estressante.

Sobre o autor

Marcelo Augusto dos Anjos Lima Martins

Mestre em Gestão e Avaliação da Educação Pública - UFJF

Especialista em Psicopedagogia – UCAM

Especialista em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas e o Mundo do Trabalho - UFPI

Pedagogo do IFMG Campus Governador Valadares

marcelo.martins@ifmg.edu.br

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