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terça-feira, 29 abril, 2025

Estudo evidencia danos à saúde de atingidos por rompimento de barragem

Pesquisa da Fiocruz está sendo apresentada em audiência pública da Comissão de Meio Ambiente da ALMG nesta terça-feira (29).
Comunidades atingidas pelo desmoronamento da barragem da Vale acompanham a audiência pública. Foto: Luiz Santana ALMG

Problemas respiratórios e de saúde mental ainda afligem a população atingida pelo rompimento da barragem da Vale em Brumadinho, mesmo mais de seis anos após a tragédia. A informação faz parte de uma pesquisa da Fiocruz Minas, que está sendo apresentada em audiência pública da Comissão de Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), nesta terça-feira (29/4/25).

Acompanhe a reunião ao vivo

Chamado Programa de Ações Integradas em Saúde de Brumadinho, a pesquisa vem sendo realizada desde 2021 e é financiada pelo Ministério da Saúde e desenvolvida em duas frentes: uma focada na população acima de 12 anos (Saúde Brumadinho) e outra voltada para crianças de 0 a 6 anos de idade (Projeto Bruminha).

A reunião foi solicitada pela deputada Bella Gonçalves (Psol). Ela lembra que essa é a terceira audiência pública a tratar da saúde das pessoas atingidas. Anteriormente, o tema já havia sido debatido pelas comissões de Saúde e de Direitos Humanos na ALMG.

“Nós estamos nessa luta para que o SUS consiga desenvolver políticas e protocolos em Minas Gerais orientadas para um contexto de intensificação da mineração no nosso Estado e nosso País.”

Bella Gonçalves
Dep. Bella Gonçalves

Além da Fiocruz e de parlamentares, estão presentes no debate representantes do poder público, da população atingida e das assessorias técnicas que acompanham as comunidades da Bacia do Rio Paraopeba impactadas pelo desastre.

Quadro de saúde mental preocupante entre adultos

Para o projeto Saúde Brumadinho, destinado a investigar os impactos em pessoas com mais de 12 anos, foi entrevistada uma média de 2500 pessoas. Os dados foram apresentados por Sérgio William Viana Peixoto, pesquisador da Fiocruz Minas e coordenador da pesquisa.

Em relação à saúde mental, a pesquisa constatou um índice de 18,1% de pessoas adultas diagnosticadas com depressão, diante de uma média nacional de 10,2%. Cerca de 28,2% dos adultos apresenta sintomas depressivos mesmo que não tenham sido diagnosticados, sendo que nas comunidades de Tejuco e Parque da Cachoeira o índice atinge mais de 40%. Entre os adolescentes, a média é de 17,6% e de 44,5% no Tejuco.

A ocorrência de asma entre os adultos atingiu um índice de 10,8% em 2024, sendo a média nacional de 5,3%. Os adolescentes apresentam uma taxa de 13,2%.

Quanto à presença de metais pesados no organismo, houve uma redução acentuada em relação ao ano de 2021, principalmente de manganésio e chumbo, mas, em 2023, 21,9% da população pesquisada ainda apresentava níveis de arsênio acima dos valores de referência.

A procura pela população por consultas médicas aumentou no período da pesquisa, de 38,6% em 2021 para 58,3% entre os adultos, e de 21,7% para 66,8% entre adolescentes.

Problemas respiratórios em crianças

Carmen Ildes Rodrigues Fróes Asmus, professora titular do Instituto de Estudos de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e coordenadora do projeto Bruminha da Fiocruz Minas, apresentou os dados da pesquisa realizada para investigar os impactos à saúde e desenvolvimento infantil, o projeto Bruminha.

Os resultados mostram uma diminuição no risco de atraso na aprendizagem, se comparados o ano de início da pesquisa (42,5% em 2021), no último ano (28, 3% em 2023), indicando uma melhora no desenvolvimento psicomotor.

Em relação ao peso e altura, houve um aumento no percentual de crianças que apresentaram Índice de Massa Corporal (IMC) normal: 76% em 2021 e 90,8% em 2023.

Contudo, foi constatado um aumento dos relatos de alterações respiratórias ao longo dos anos. Em 2021, foi detectado um risco 3 vezes maior de alergias respiratórias nas localidades expostas à poeira de resíduos de mineração.

No que se refere à exposição de resíduos de metais, houve aumento do percentual total de crianças que apresentaram concentrações de arsênio na urina acima dos valores de referência: de 42% em 2021 para 57% em 2023. Na comunidade do Tejuco, localizada próxima ao local do rompimento, a concentração chega a 72%.

A pesquisadora alerta, no entanto, que os resultados indicam uma situação de exposição, não de intoxicação das crianças. Também não foi observada associação entre a exposição a metais e a ocorrência de alterações no crescimento e desenvolvimento neuromotor e cognitivo na população estudada.

Atingidos demandam protocolo específico

Logo no início da audiência pública, representantes das comunidades atingidas relataram as dificuldades enfrentadas no acesso e tratamento dos danos à saúde através do Sistema Único de Saúde (SUS).

“O SUS não está preparado para nos atender”, lamentou Michelle Rocha, moradora da comunidade de Monte Calvário, em Betim (Metropolitana de BH). Ela relata que são muitos os casos de falta de diagnóstico ou diagnósticos errados.

Segundo Abdalah Nacif, da comunidade de Beira Córrego, em Fortuna de Minas (Central), um grupo de trabalho foi criado para elaborar um protocolo de saúde específico para atendimento das pessoas atingidas. A demanda é resultado de conferências livres de saúde construídas pelas próprias comunidades e foi posteriormente apresentada na 17ª Conferência Nacional de Saúde, realizada em 2023.

Robson de Oliveira, morador do distrito de Piedade de Paraopeba, em Brumadinho (Central), questionou que a garantia do direito à saúde esteja sendo discutida a partir do acordo judicial de reparação, assinado pela Vale, Governo de Minas e instituições de justiça em 2021. 

“Quem usa o sistema público de saúde somos nós, as pessoas atingidas, não é quem está nesse acordo definindo valores, auditorias e quem executa os projetos”, disse.

Com informações do site oficial da Assembleia Legislativa de Minas Gerais

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