Maria Emília: a menina que queria emagrecer e acabou virando nutricionista

Edmundo Alvarenga entrevistou a nutricionista Maria Emília Abreu de Miranda, homenageada pela Câmara GV pelo seu trabalho à frente da Clínica AliMente

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Atualizado em domingo 30, agosto 2026 às 09h26

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6 min de leitura

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Edmundo: Maria Emília, antes de falar da nutricionista que você é hoje, quero voltar um pouco no tempo. Você é filha de dois amigos meus de longa data, Edelvandro e Maria Aparecida. Como começou essa sua história com a Nutrição?

Maria Emília: Na verdade, começou muito antes da faculdade. Eu sempre fui uma criança mais ‘parrudinha’ e, desde cedo, tive uma relação complicada com meu peso e com meu corpo. Ainda muito nova, já tinha aquela vontade de emagrecer e a sensação de que precisava fazer alguma coisa pra mudar meu corpo.

Edmundo: E na adolescência isso ficou mais difícil?

Maria Emília: Ficou. Minha família passou por uma fase muito delicada quando meu irmão enfrentou uma depressão grave. Eu ainda era adolescente e não sabia lidar direito com tudo aquilo. Acabei encontrando na comida uma forma de aliviar algumas emoções. Foi quando começaram os episódios de compulsão alimentar.
Ao mesmo tempo em que a comida era um conforto, eu queria muito emagrecer. Então comecei a fazer dietas restritivas, cortar alimentos e experimentar aquelas várias promessas de emagrecimento rápido.

Edmundo: Seus pais acompanharam esse período?

Maria Emília: Muito. Meu pai e minha mãe sempre estiveram presentes e tentavam me ajudar como podiam. Me acompanhavam nas tentativas de emagrecimento, procuravam alternativas e me apoiavam. Eu até brinco que só não tomei remédio pra emagrecer naquela época porque minha mãe não deixou.

Edmundo: E quando apareceu a ideia de ser nutricionista?

Maria Emília: Maria Emília: Muito cedo. Com uns 14 anos eu já dizia que queria fazer Nutrição. Naquela época eu ainda não entendia nada do que sei hoje sobre comportamento alimentar. Era simplesmente uma adolescente tentando entender o próprio corpo e a alimentação. Mas aquele universo já me despertava interesse.

Edmundo:E o emagrecimento aconteceu?

Maria Emília: De uma maneira curiosa. Aos 17 anos, quando chegou a época do vestibular, concentrei minha atenção nos estudos. E foi justamente quando parei de gastar tanta energia pensando em emagrecer que comecei a emagrecer. Eu costumo dizer que não me vi emagrecer. Quando percebi, já estava usando 38/40.
Mas minha relação com o peso não se resolveu ali. Durante muitos anos ainda tive oscilações, preocupações e o famoso efeito sanfona. Por fora, muitas vezes eu era vista como uma pessoa magra. Por dentro, aquela história que começou na infância e na adolescência continuava existindo.

Edmundo: Em 2010 você finalmente entrou na faculdade?

Maria Emília: Sim. Foi a realização daquele desejo que eu carregava desde os 14 anos. Entrei na faculdade de Nutrição em 2010 e, no final de 2013, me formei.

Edmundo: E como foi o começo da profissão?

Maria Emília: Maria Emília: No início, segui caminhos mais tradicionais. Estudei Nutrição Esportiva e Funcional, fiz pós-graduação, cursos e fui me aperfeiçoando. Eu gostava da profissão, mas ainda sentia que estava faltando alguma coisa. Ainda procurava o meu lugar dentro da Nutrição.

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Edmundo: E quando você encontrou esse lugar?

Maria Emília: Em 2017, quando conheci a Nutrição Comportamental. Foi como se várias peças da minha própria história se encaixassem.
Percebi que alimentação não era só nutriente, caloria e prescrição. Uma pessoa pode saber perfeitamente o que deveria comer e, mesmo assim, não conseguir fazer aquilo. Existem emoções, culpa, restrições, crenças, história familiar, relação com o corpo e muitas outras coisas envolvidas. Naquele momento pensei: ‘É isso. Eu me encontrei.’

Edmundo: Você passou a enxergar sua própria adolescência de outra maneira?

Maria Emília: Com certeza. Quanto mais eu estudava comportamento alimentar, mais entendia aquela menina que eu tinha sido. Passei a compreender melhor a adolescente que comia pra lidar com o que sentia e depois tentava compensar com dietas restritivas.Talvez por isso essa área tenha feito tanto sentido pra mim.

Edmundo: E sua vida pessoal também foi mudando nesse período.

Maria Emília: Sim. Em 2016 me casei com o Junior, meu companheiro de vida, que também trabalha na área da saúde, como personal trainer. Depois vieram nossos filhos. A Luana nasceu em 2019 e o Mateus chegou em 2024.A maternidade mudou muita coisa em mim. Mudou minha rotina, minhas prioridades e também a maneira como vejo as mulheres que chegam ao meu consultório.
Hoje entendo ainda melhor que a vida real não é aquela rotina perfeita que muitas vezes aparece nas redes sociais. Existem filhos, trabalho, casamento, cansaço, imprevistos, emoções, noites mal dormidas e dias em que a gente simplesmente faz o que consegue.E acho que a Nutrição precisa caber nessa vida real.

Edmundo: Edmundo: Sua carreira também não foi uma linha reta, não é?

Maria Emília: Não. Nesses quase 13 anos de formada, tive momentos maravilhosos, mas também dúvidas, dificuldades e mudanças de direção. Em alguns momentos até pensei se deveria continuar. Precisei me reinventar algumas vezes e conciliar a profissional, a esposa, a mãe e a Maria Emília.
Hoje estou à frente da Clínica AliMente, onde consigo colocar em prática aquilo em que acredito. Meu trabalho é principalmente com pessoas que passaram anos tentando emagrecer, que conhecem muitas dietas, mas estão cansadas de viver entre restrição, culpa e recomeços.

Edmundo: Olhando pra sua história, existe uma coisa curiosa. A menina que vivia preocupada com o peso acabou escolhendo justamente uma profissão voltada à relação das pessoas com a comida.

Maria Emília: É verdade. A menina que começou a fazer dietas muito cedo, que viveu a compulsão alimentar e que aos 14 anos decidiu que queria ser nutricionista cresceu e acabou trabalhando justamente com a relação das pessoas com a comida. Sabe, Edmundo, algumas escolhas fazem sentido muito antes de a gente entender o motivo.

Edmundo: Recentemente você recebeu uma homenagem pelo Dia do Nutricionista na Câmara Municipal. O que aquilo representou pra você?

Maria Emília: Representou muito mais do que um reconhecimento profissional. Naquele momento, inevitavelmente olhei pra trás.
Pensei na adolescente que sonhava em fazer Nutrição, na universitária que entrou na faculdade em 2010, na recém-formada de 2013 que ainda procurava seu caminho, na mulher que se casou em 2016, na profissional que encontrou o comportamento alimentar em 2017 e na mãe que nasceu com a chegada da Luana e depois se transformou novamente com o Mateus. E cheguei até a Maria Emília de hoje.

Edmundo: Edmundo: E quem é essa Maria Emília hoje?

Maria Emília: Sou nutricionista, esposa, mãe de dois filhos, mulher, empresária e alguém que continua aprendendo todos os dias.
Depois de quase 13 anos de consultório, continuo acreditando na Nutrição. Mas numa Nutrição cada vez mais humana. Uma Nutrição que entende exames, nutrientes e as necessidades do corpo, mas que também sabe ouvir histórias.
Porque foi a minha própria história que me trouxe até aqui.
E é justamente por isso que hoje eu consigo olhar pra história de quem chega até mim com um pouco mais de compreensão.

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