O voto, a cidade e a prata da casa

Não pretendo sustentar que alguém deva receber voto apenas porque nasceu aqui, mora aqui ou construiu aqui sua trajetória

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POR JAMIR CALILI

Neste domingo quero propor uma reflexão sobre algo que sempre me chama a atenção nas eleições gerais: a relação entre o eleitor de Governador Valadares e os candidatos que possuem vínculo direto com a nossa cidade. Não pretendo sustentar que alguém deva receber voto apenas porque nasceu aqui, mora aqui ou construiu aqui sua trajetória. Política não pode ser só um campeonato de CEP. Mas também não faz sentido tratar a vinculação com a cidade como irrelevante.

Gosto de comparar essa questão com aquilo que acontece dentro das famílias. Muitas vezes somos mais críticos com quem está dentro de casa do que com quem está fora. Existe uma razão simples: convivemos mais com os nossos. Conhecemos qualidades, defeitos, erros, manias e contradições. Quem está distante aparece de maneira mais filtrada. Vemos uma entrevista, um vídeo bem produzido, um discurso de cinco minutos. Já o político da cidade encontramos na rua, nas entidades, na Câmara, nas reuniões. Sabemos onde acertou e onde errou.

Essa proximidade pode produzir rejeição, mas também produz algo importante para a democracia: cobrança. O político com base local não desaparece com facilidade. Segunda-feira depois da eleição, ele continuará encontrando as mesmas pessoas e sendo pressionado pelos mesmos problemas. Isso não significa que candidatos de outras cidades não possam contribuir com Governador Valadares. Podem e muitos contribuem. A questão é outra: cidades que conseguem construir representação política própria ampliam seus canais de interlocução em Belo Horizonte e Brasília. Recursos, agendas, emendas e articulações não surgem apenas de discursos ideológicos. Dependem também de relações políticas permanentes.

Há ainda um aspecto pouco compreendido do nosso sistema eleitoral. Deputados são escolhidos pelo sistema proporcional. O voto dado a uma candidatura também participa da votação do partido ou da federação, ajudando a definir quantas cadeiras aquela legenda terá. Portanto, mesmo quando determinado candidato não se elege, a votação recebida possui significado político e partidário.

Eu mesmo vivi isso. Na eleição estadual de 2022 obtive 18.911 votos em Minas Gerais e fiquei na suplência. Não me tornei deputado, mas aquela votação ampliou minha interlocução política e fez com que parlamentares estaduais e federais passassem a enxergar com mais atenção as pautas que eu apresentava. Voto não produz apenas mandato. Produz também representatividade e capacidade de interlocução.

Nas eleições de 2026, o eleitor valadarense encontrará candidaturas ligadas à cidade em diferentes campos políticos. Para deputado estadual estão, entre outros, Enes Cândido, André Merlo, Jepherson Madureira e Gilsa Santos. Para deputado federal aparecem Élio Lacerda, Erika Guerrieri, Roncali da Farmácia, Leonardo Monteiro, Euclydes Pettersen e Vinicius Diniz. São partidos, histórias e visões diferentes. Isso permite considerar a dimensão territorial sem abandonar convicções ideológicas.

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Ao mesmo tempo, Minas possui candidaturas de projeção estadual. Nikolas Ferreira, pela direita, e Duda Salabert, pela esquerda, são exemplos de nomes cuja campanha ultrapassa a cidade onde construíram sua trajetória política. É legítimo que o eleitor se identifique com projetos desse tipo. A pergunta que vale fazer é: além das grandes disputas nacionais e ideológicas, quem acompanhará de perto os problemas concretos de Governador Valadares?

No dia 4 de outubro, as urnas serão abertas. No dia seguinte, entretanto, a cidade continuará aqui. Continuaremos discutindo saúde, hospital regional, aeroporto, universidades, segurança, emprego, infraestrutura, assistência social, Rio Doce e desenvolvimento econômico. A polarização nacional pode ocupar as redes sociais, mas os problemas cotidianos exigirão interlocução com deputados, governos e instituições.

Talvez amadurecer politicamente seja compreender que ideologia importa, partido importa, caráter importa, competência importa, trajetória importa e vínculo com a comunidade também pode importar. Nenhum desses elementos, isoladamente, deveria decidir um voto. O eleitor precisa compará-los e fazer sua própria escolha.

Tenho minhas preferências pessoais, como qualquer cidadão, mas elas não substituem o julgamento de ninguém. Eu, por exemplo, apoio Enes Cândido para estadual, uma vez que ele foi um verdadeiro deputado de nossa região e abraçou causas que para mim são caras, e Elio Lacerda para federal, pela integridade e seriedade que reconheço em sua trajetória.

Mas o mais importante é sair da lógica da paixão automática e fazer perguntas concretas: quem é essa pessoa? O que já fez? Que compromissos assume? Qual sua capacidade de articulação? Qual sua relação efetiva com a cidade? O atual momento precisa de menos fanatismo, mais discernimento; menos paixão automática, mais consciência sobre as consequências do voto e a importância de escolher bem e escolher sempre nossa cidade e região.

Sobre o autor

Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.

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