Quanto vale um bom resultado?

O desafio de transformar eficiência e qualidade em regras de financiamento

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Female doctor examining senior woman

POR MARCELA FANNI

Evitar uma internação desnecessária é um bom resultado. Reduzir complicações, também. Manter sob controle uma doença crônica, idem. Mas quem fez um bom trabalho ganha mais por isso?

Essa pergunta está no centro dos modelos de remuneração baseada em valor. Na coluna anterior, discutimos como o pagamento por serviço estimula o volume. O passo seguinte é entender como fazer qualidade, resultado e eficiência entrarem na conta.

Não existe uma fórmula pronta. Parte do pagamento pode variar conforme indicadores de desempenho. Um tratamento pode ser remunerado como um pacote, em vez de cada etapa cobrada isoladamente. A economia gerada pela redução de desperdícios pode ser dividida entre os envolvidos. São mecanismos diferentes com o mesmo objetivo de aproximar o incentivo financeiro do resultado que se quer alcançar.

Exemplos que já existem no Brasil

A Unimed-BH trabalha com remuneração variável para seus médicos cooperados desde 2016 e vem ajustando o modelo ao longo dos anos. Em 2026, a bonificação pode chegar a 15% dos honorários, conforme critérios que incluem sinistralidade e experiência dos clientes, medida pelo NPS. É um exemplo de como indicadores de desempenho podem ser incorporados à remuneração, reduzindo a dependência de um modelo baseado exclusivamente na produção.
A CEMIG Saúde seguiu outro caminho, com diária semiglobal associada ao desempenho e contratos que preveem a divisão dos ganhos obtidos com a redução de desperdícios entre operadora, hospital e médicos. Assim, os três passam a compartilhar o interesse econômico de melhorar resultados utilizando melhor os recursos.

E no SUS?

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A lógica muda, porque o dinheiro é público. Ainda assim, no novo modelo de financiamento federal da Atenção Primária, criado em 2024, parte do repasse aos municípios já depende do desempenho das equipes em indicadores como acesso, acompanhamento de gestantes e controle de diabetes e hipertensão.

O ponto mais difícil

Ainda há uma distância grande entre remunerar desempenho e remunerar valor. Cumprir um indicador não garante o melhor desfecho. Reduzir custos não significa, necessariamente, gerar valor. E um modelo mal desenhado pode criar distorções se medir mal aquilo que pretende incentivar.

Por isso, o desafio real não é pagar por valor, é conseguir defini-lo e medi-lo de forma justa. Pacientes têm riscos diferentes, populações são diferentes, e muitos resultados em saúde só aparecem no longo prazo.
Estamos começando a colocar qualidade dentro das regras financeiras. O próximo passo é mais difícil: se o dinheiro deve acompanhar o valor entregue, estamos preparados para medir esse valor?

Sobre a autora

Marcela Fanni é preceptora de Gestão em Saúde no curso de Medicina da Univale. Mestre em Engenharia Química e especialista em Gerenciamento de Projetos, atua no desenvolvimento de projetos de saúde e gestão pública.

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