Caríssimo ledor (a), setembro é marcado, no Brasil e em várias partes do mundo, pela conscientização sobre a prevenção contra o auto exterminio( popularmente conhecido como suicídio). Conhecida como Setembro Amarelo, a campanha procura romper o silêncio, combater preconceitos e lembrar que o sofrimento emocional precisa ser acolhido com seriedade, respeito e compaixão.
O movimento internacional ligado à fita amarela foi inspirado pela história do jovem norte-americano Mike Emme, que morreu por suicídio em 1994, aos 17 anos. Mike havia restaurado um automóvel amarelo, e essa cor tornou-se símbolo de uma mobilização criada por familiares e amigos para estimular pessoas em sofrimento a pedirem ajuda. Em 2003, o dia 10 de setembro passou a marcar o Dia Mundial de Prevenção do Auto Exterminio. No Brasil, a campanha Setembro Amarelo começou em 2015, promovida pela Associação Brasileira de Psiquiatria, em parceria com o Conselho Federal de Medicina, recebendo posteriormente a participação de diversas instituições.
Mais do que iluminar prédios ou usar laços amarelos, a campanha precisa iluminar consciências. Prevenir o auto exterminio significa reconhecer sinais de sofrimento, oferecer escuta sem julgamento e construir caminhos de cuidado. Segundo a Organização Mundial da Saúde, o auto exterminio é um fenômeno complexo, relacionado a diferentes fatores psicológicos, sociais, culturais, econômicos e ambientais. Portanto, não deve ser explicado como simples falta de fé, coragem ou força de vontade.
O auto extermínio ocorre, muitas vezes, quando alguém vive uma dor tão intensa que não consegue enxergar outra possibilidade para interrompê-la. Em muitos casos, a pessoa não deseja propriamente o fim da vida, mas o fim de um sofrimento que lhe parece insuportável.
Por isso, frases como “isso é falta de Deus”, “você precisa reagir” ou “há pessoas em situação pior” não ajudam. Elas podem aumentar a culpa e o isolamento. O caminho do cuidado começa quando alguém se dispõe a dizer: “Estou aqui”, “Você não precisa enfrentar isso sozinho” e “Vamos procurar ajuda juntos”.
A Bíblia registra experiências humanas de profundo desânimo. O profeta Elias, perseguido, cansado e tomado pelo medo, chegou a desejar a morte: “Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais.” (1 Reis 19,4 — Bíblia de Jerusalém)
A resposta de Deus não foi uma condenação. Elias recebeu alimento, água, descanso, presença e uma nova direção. Essa passagem ensina algo muito importante: antes de exigir explicações ou decisões de quem está emocionalmente exausto, é necessário oferecer cuidado concreto. O tratamento espiritual não exclui o cuidado do corpo e da mente.
A Escritura também apresenta a vida como dom sagrado: “Escolhe, pois, a vida, para que vivas, tu e a tua descendência” (Deuteronômio 30,19). Em outro momento de aflição, o salmista proclama: “Iahweh está perto dos corações contritos; ele salva os espíritos abatidos” (Salmo 34,19).
As diferentes tradições religiosas possuem doutrinas próprias, mas muitas convergem na defesa da dignidade da vida e no dever comunitário de acolher quem sofre.
No cristianismo, católicos e diferentes comunidades protestantes reconhecem a vida como dom de Deus. A Igreja Católica ensina que perturbações psíquicas graves, angústia e medo podem diminuir a responsabilidade da pessoa que morreu por o auto exterminio. O Catecismo também orienta os fiéis a não perderem a esperança na misericórdia de Deus e a rezarem por aqueles que morreram dessa maneira. Portanto, o ensinamento cristão não deve ser utilizado para condenar famílias ou vítimas, mas para incentivar cuidado, misericórdia e prevenção.
No judaísmo, a preservação da vida humana é um princípio fundamental. No islamismo, a vida também é considerada sagrada e pertencente a Deus, cabendo à comunidade amparar a pessoa fragilizada. No espiritismo, a existência corporal é compreendida como oportunidade de aprendizado e desenvolvimento espiritual, sendo recomendados o acolhimento, a oração, o auxílio fraterno e o acompanhamento necessário.
Apesar das diferenças doutrinárias, nenhuma comunidade religiosa deve substituir médicos, psicólogos, psiquiatras ou outros profissionais quando existe sofrimento psíquico, fé e ciência não são inimigas. A espiritualidade pode oferecer sentido, pertencimento e esperança, enquanto os especialistas avaliam as necessidades clínicas e indicam o tratamento adequado.
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Não é vergonha buscar ajuda. Reconhecer os próprios limites e permitir que alguém se aproxime exige coragem. O sofrimento emocional não é sinal de fraqueza moral ou espiritual, e a pessoa que enfrenta uma crise não deve ser culpada nem abandonada.
Quem está desanimado, isolado, sem propósito ou pensando que sua ausência seria melhor para os outros precisa conversar imediatamente com alguém de confiança. Pode procurar um familiar, amigo, professor, líder religioso, sacerdote, pastor, orientador espiritual, psicólogo, psiquiatra, unidade básica de saúde ou Centro de Atenção Psicossocial — CAPS.
As instituições religiosas também podem organizar grupos de escuta, pastorais, reuniões para jovens, rodas de conversa e equipes de acolhimento. Esses espaços precisam contar com pessoas preparadas para ouvir com responsabilidade, respeitar o sigilo possível e encaminhar situações graves aos serviços especializados. A missão de um líder religioso não é dar respostas apressadas, mas caminhar ao lado de quem sofre e ajudá-lo a alcançar a rede de proteção.
A oração pode fortalecer, mas não deve ser apresentada como substituta de tratamento. Da mesma forma, o tratamento clínico não precisa excluir a dimensão espiritual de quem encontra na fé uma fonte de esperança.
Tudo na vida está sujeito a mudanças. Uma crise emocional pode parecer interminável, mas sentimentos, circunstâncias e maneiras de enxergar a realidade podem se transformar com tempo, cuidado, acompanhamento e apoio. O momento doloroso não precisa determinar toda a história de uma pessoa.
Se alguém disser que não deseja mais viver, essa fala deve ser levada a sério. Não se deve deixar a pessoa sozinha, ridicularizá-la, desafiá-la ou exigir que guarde segredo. É necessário permanecer ao lado dela e buscar ajuda imediatamente.
O Centro de Valorização da Vida, conhecido como CVV, oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, durante 24 horas, além de atendimento por chat no site oficial do CVV. Em situação de perigo imediato, deve-se procurar uma Unidade de Pronto Atendimento, um pronto-socorro ou acionar o SAMU pelo número 192.
O Setembro Amarelo recorda que todos podemos fazer parte dessa rede de proteção. Uma conversa pode abrir uma porta. Uma presença pode diminuir a solidão. Um encaminhamento responsável pode preservar uma vida.
Se hoje você se sente cansado, sem direção ou sem esperança, não enfrente esse momento sozinho. Procure ajuda material e espiritual. Permita que profissionais, familiares, amigos e sua comunidade de fé caminhem ao seu lado. Sua dor merece cuidado, sua história ainda pode encontrar novos caminhos e sua vida possui um valor que o sofrimento deste momento talvez não lhe permita perceber.
Pedir ajuda não é desistir: é escolher continuar, peça ajuda ou apoio, como definer, mas não tente resolver sozinho aquilo, com ajuda, creia, o fardo ficará mais leve. (Entre em nosso Instagram e sugira um tema para os próximos artigos e concorra abrindes; @teologotohru). Paz e Bem.
Sobre o autor
TOHRU VALADARES bacharel em Teologia, Filosofia, Licenciado em Ciências da Religião, Psicólogo, Pós-graduado em conselhamento Cristão e Capelania, mediação de conflitos, filosofia Religiosa e ecopedagogia.
