O Senado que poderá emergir das urnas

Uma projeção feita com 213 pesquisas estaduais até 3 de setembro indica que o PL pode chegar a cerca de 21 senadores e formar a maior bancada individual

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Atualizado em segunda-feira 14, setembro 2026 às 09h43

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SENADO

POR JAMIR CALILI

O Brasil não tem nos dado trégua e embora sejam muitos fatos a serem comentados, vou deixar o escândalo do STF para outro domingo. Quero antes pensar um pouco na eleição do Senado e a sua conexão com o debate nacional sobre o STF. É claro que fazer prognósticos eleitorais sempre traz risco. Para o Senado talvez ainda mais, já que em 2026 cada eleitor vota em dois nomes e entram em disputa 54 das 81 cadeiras. Esse sistema abre espaço para surpresas nas semanas finais que as pesquisas nem sempre captam. O que trago aqui não é previsão de resultado, mas um retrato do momento presente.

Esse retrato mostra uma tendência clara: se a eleição fosse hoje o Senado sairia das urnas mais à direita do que entrou. Pesquisas estaduais apontam candidaturas conservadoras fortes no Acre, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso do Sul, Paraná, Rondônia, Roraima, Santa Catarina e no Distrito Federal. Outros estados também oferecem chances reais. A esquerda, por sua vez, segue competitiva na Bahia, Pernambuco, Pará e em boa parte do Nordeste. Entre esses polos fica o grande centro que historicamente decide a Casa: MDB, PSD, União Brasil, PP, Republicanos e outras siglas cujos senadores nem sempre seguem uma linha rígida.

Uma projeção feita com 213 pesquisas estaduais até 3 de setembro indica que o PL pode chegar a cerca de 21 senadores e formar a maior bancada individual. Juntos com outros partidos de direita e centro-direita, esse campo teria condições de montar maioria política contra o governo Lula, caso este fosse eleito, ou garantir estabilidade política a Flávio Bolsonaro, caso este sagra-se vencedor.

Daí surge uma primeira consequência: a disputa pela Presidência do Senado. Nesse ponto, uma vitória da direita parece hoje bastante possível. Alcolumbre estaria com os dias contados. São necessários 41 votos para maioria absoluta. Se o quadro atual se mantiver, a direita talvez consiga chegar sozinha a esse número. Tudo indica que terá uma bancada sólida e nem seria preciso conquistar todo o centro, bastaria um pedaço dele. O Senado, mais que qualquer outra casa, vive de maiorias pragmáticas e neste caso, a expectativa de dominar a presidência atrairia os indecisos.

Mas aqui aparece uma diferença essencial. Eleger o presidente da Casa é uma coisa. Reunir votos para impeachment de ministro do Supremo é outra. A Constituição pede dois terços dos senadores, ou 54 votos. Maioria difícil de alcançar. Mesmo com crescimento expressivo da direita, os números atuais não garantem esse total. Fiz um cálculo conservador para a Direita, estado por estado, levando em conta quem fica até 2031 e os nomes mais fortes nas 54 vagas em jogo. O resultado aponta algo como 37 senadores potencialmente favoráveis a processos contra ministros do Supremo, 27 contrários e cerca de 17 pendulares. É só uma simulação, claro. Mas ela revela o tamanho do problema. Para controlar o Senado a direita precisa conquistar só parte desse grupo intermediário. Para chegar aos 54 votos, precisaria quase todos. Isso muda tudo.

Ainda existe outra variável que costuma ficar de lado: o presidente da República. Senadores de centro, estejam mais perto da centro-direita ou da centro-esquerda, agem de forma profundamente pragmática. Governadores precisam de recursos, parlamentares negociam emendas, espaços, presidências de comissões. Quem estiver no Planalto a partir de 2027 terá grande poder de influência sobre esse bloco.

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Por isso uma vitória presidencial da direita poderia puxar esses senadores para uma linha mais dura contra o Supremo. Uma reeleição de Lula faria o movimento contrário. O mesmo Senado pode agir de formas bem distintas conforme quem ocupar a cadeira presidencial.

Há ainda um fator novo. A tensão entre parte da direita e o STF virou tema de campanha. A crise recente com ministros da Corte alimenta esse discurso. Reportagem da Folha mostra que o PL disputa 24 vagas de forma competitiva e colocou a pauta do Supremo no centro de sua estratégia.

Não quer dizer que haverá impeachment. Ainda considero esse desfecho muito difícil. Mas a diferença importa: ele parece hoje menos improvável do que seria no Senado atual. Talvez essa seja a conclusão principal. A eleição de 2026 pode entregar maioria suficiente para trocar o comando da Casa, mudar presidências de comissões, pautar investigações e alterar o equilíbrio entre Congresso, Executivo e Supremo. Para chegar aos 54 votos de uma condenação, porém, seria preciso mais que uma boa eleição da direita. Seria necessária uma crise institucional grave capaz de deslocar quase todo o centro. Sobre essa crise comentarei no próximo domingo.

Falta pouco mais de um mês. Com dois votos por eleitor, muita coisa ainda pode mudar. Hoje, portanto, é apenas um prognóstico. Depois das urnas viram números. E não se trata de uma torcida, mas de uma análise onde coloquei em perspectivas as pesquisas mais recentes.

Sobre o autor

Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.

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