Do volume ao valor

Como as regras de pagamento influenciam o comportamento do sistema de saúde

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3 min de leitura

Saúde suplementar

POR MARCElA FANNI

Pense em um motorista de aplicativo que recebe por corrida. Quanto mais viagens faz, maior é sua remuneração. Ninguém precisa dizer que faça mais corridas: a própria regra de pagamento dita o comportamento. Incentivos funcionam assim, influenciando decisões sem ordens explícitas.

Na saúde, essa lógica traz consequências mais profundas.

Especialmente na saúde suplementar, o sistema foi organizado para remunerar o que é realizado: consultas, exames, procedimentos, internações. É o chamado fee-for-service, pagamento por serviço. Cada atividade tem um preço e, quanto maior o volume, maior a receita.

O problema está no comportamento gerado por esse modelo. Uma consulta detalhada que evita intervenções desnecessárias rende menos que uma sequência de exames. Um serviço que investe em acompanhamento e evita uma internação ganha menos justamente por economizar recursos.

Esse paradoxo mostra por que discutir eficiência exige rever os incentivos econômicos. De nada adianta fixar metas de qualidade e combater desperdícios se o modelo financeiro continua premiando a quantidade.

É nesse ponto que a discussão sobre valor em saúde ganha uma dimensão prática.

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A Agência Nacional de Saúde Suplementar vem estimulando modelos de remuneração baseada em valor. Em 2023, a ANS selecionou para acompanhamento 20 iniciativas em áreas como atenção primária, saúde do idoso, oncologia, reabilitação após AVC e transtorno do espectro autista. A proposta é atrelar o pagamento aos resultados, incorporando indicadores de desempenho, desfechos clínicos e experiência do paciente.

Algumas dessas mudanças já ocorrem perto de nós. A Unimed Governador Valadares criou um Escritório de Valor em Saúde, voltado ao uso de dados, redução de desperdícios e acompanhamento de resultados. A cooperativa também vem trabalhando com modelos híbridos de remuneração e metodologias de mensuração de valor. Na prática, é uma tentativa de fazer com que qualidade, resultado e eficiência também tenham peso na lógica de gestão e remuneração.

São experiências em construção, mas importantes. Migrar do volume para o valor não significa simplesmente substituir uma tabela de pagamento por outra. Exige definir o que será medido, como comparar populações, distribuir riscos e evitar novas distorções. Modelo de cuidado e modelo de pagamento devem caminhar juntos.

Esse tema abre um novo ciclo desta coluna. Após doze semanas analisando os desafios da gestão em saúde, o foco passa a ser as soluções em construção no Brasil e no mundo para gerar eficiência e sustentabilidade dos sistemas de saúde.

Começamos pelos incentivos porque eles revelam um princípio básico da gestão: regras moldam comportamentos, e comportamentos geram resultados. Se buscamos mais qualidade, a pergunta fundamental é: estamos remunerando o que realmente queremos incentivar?

Sobre a autora

Marcela Fanni é preceptora de Gestão em Saúde no curso de Medicina da Univale. Mestre em Engenharia Química e especialista em Gerenciamento de Projetos, atua no desenvolvimento de projetos de saúde e gestão pública.

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