A eleição de 2026 e o desafio da mobilização

Na ciência política, eleições presidenciais com um presidente buscando permanecer no poder costumam adquirir uma dimensão plebiscitária. O eleitor julga o governo: merece continuar ou não?

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POR JAMIR CALILI

Quero propor ao leitor uma chave para compreender a eleição presidencial de 2026. Ela tem uma grande semelhança com 2022 e uma diferença que pode ser decisiva. A semelhança é a polarização. A diferença está no estado de espírito do eleitor. Em 2022, havia enorme disposição para ir às urnas. Em 2026, percebe-se uma sociedade mais cansada da política. Talvez esteja aí a questão central desta eleição.

As pesquisas mais recentes mostram uma disputa apertada entre Lula e Flávio Bolsonaro. O Datafolha desta semana registrou 39% para Lula e 36% para Flávio no primeiro turno e, numa simulação de segundo turno, 46% a 44%, dentro da margem de erro. A Quaest também encontrou empate técnico. Num cenário assim, pequenas diferenças de comparecimento podem produzir grandes efeitos.

Na ciência política, eleições presidenciais com um presidente buscando permanecer no poder costumam adquirir uma dimensão plebiscitária. O eleitor julga o governo: merece continuar ou não? Em 2026, porém, esse plebiscito tem uma característica própria. Lula não enfrenta alguém inteiramente novo. Flávio Bolsonaro representa um campo político que já governou o país e carrega o legado de Jair Bolsonaro. Os dois lados não disputam apenas esperança, mas também memória, avaliação de governos e comparação entre experiências conhecidas.

É por isso que propostas, denúncias e acontecimentos da campanha continuam importantes, mas passam a funcionar dentro de uma decisão maior: qual dos dois campos o eleitor deseja manter ou reconduzir ao poder? Quando a polarização se consolida, a questão deixa de ser apenas convencer o adversário. Passa a ser, também, fazer o próprio eleitor comparecer. Aqui, o eleitor de centro e independente passa a valer ouro e ele, sabendo do seu valor, também, é o eleitor mais difícil de se conquistar.

Nos Estados Unidos isso é muito evidente. Como o voto não é obrigatório, as campanhas precisam identificar e, sobretudo, mobilizar eleitores. Não basta preferir um candidato. É preciso que essa preferência seja forte o suficiente para fazê-lo sair de casa e votar. Em 2016, Hillary Clinton venceu o voto popular, mas perdeu no Colégio Eleitoral. Naquela eleição, o comparecimento dos eleitores negros caiu fortemente em relação a 2012. Parte de uma eleição, portanto, não se decide pela conversão de votos, mas pela presença ou ausência de determinados grupos nas urnas.

O Brasil sempre foi diferente porque, para a maior parte dos adultos, o alistamento e o voto são obrigatórios. Mas essa diferença diminuiu na prática. O eleitor pode votar em branco ou nulo, justificar a ausência e, se faltar sem justificativa, a multa é muito baixa. Para jovens de 16 e 17 anos, maiores de 70 anos e analfabetos, o voto é facultativo. Mesmo com voto obrigatório, existe uma decisão concreta sobre o quanto cada eleitor está disposto a se mobilizar.

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A eleição de 2022 mostrou a força desse fenômeno. Quase 125 milhões de brasileiros compareceram no segundo turno. Lula recebeu 60,3 milhões de votos (o mais bem votado da história) e Bolsonaro, 58,2 milhões (o segundo mais bem votado da história). Foram números extraordinários. A eleição mobilizou paixões, medos, rejeições e expectativas. O eleitor estava disposto a enfrentar dificuldades para votar.

Em 2026, a semelhança está na polarização; a diferença pode estar justamente na intensidade dessa disposição. Há um evidente cansaço com o debate político. E isso muda a pergunta central da campanha. Talvez não seja apenas “quem consegue convencer mais?”, mas “quem consegue transformar sua preferência em comparecimento?”.

É nesse ponto que acontecimentos como a atual crise envolvendo o Supremo Tribunal Federal podem adquirir importância eleitoral. Não necessariamente porque convertam em massa eleitores de um campo para outro, mas porque podem despertar uma base que estava desanimada e agora se sentem motivadas a irem votar. Discursos como políticas econômicas, programas sociais, democracia e corrupção perderam a força nesta eleição. Mobilizar é transformar a opinião em voto efetivo na urna.

Esse efeito não ficará restrito à Presidência. Ele pode repercutir nas eleições para governador e, principalmente, para o Senado. Em Minas Gerais, por exemplo, a disputa pelas duas vagas está fragmentada: pesquisa recente colocou Marília Campos, Aécio Neves, Carlos Viana, Domingos Sávio e Marcelo Aro em um bloco competitivo, com 20% de indecisos. Numa eleição com duas escolhas para senador, a capacidade de cada campo de levar seus eleitores às urnas pode alterar profundamente o resultado.

Em 2022, a polarização produziu mobilização extraordinária. Em 2026, a polarização permanece, mas encontra um eleitor mais cansado. Num cenário apertado, a diferença pode estar menos em converter o adversário e mais em transformar preferência em comparecimento. No fim, a eleição poderá ser decidida por uma pergunta muito elementar: no domingo da votação, quem estará suficientemente motivado para sair de casa e votar?

Sobre o autor

Jamir Calili, professor da UFJF, vereador, membro da Academia Valadarense de Letras, na cadeira de Machado de Assis.

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